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6.10.2012

QUANDO A MEMÓRIA SE ESVAI

Numa sala de seres adormecidos, há uma mulher desperta. Ansiosa... - dizem-me. Parece que pressentiu a sua vinda. Entro e sorrio-lhe. Aproximo-me e abraço-a. Ligam-nos laços fundos, de outras eras, de outras dimensões... Observa-me de olhar cúmplice! Reconheceu-me... Agarra-me o casaco e passa devagar os dedos pelo tecido.
- Não conhecia este... - diz-me. E continua a sua narrativa mental... Tens a chave? - pergunta. Vai já fechar a porta. Eles puseram o relógio de corda antigo no quintal. O relógio de corda que era do teu avô. Eu não quero o relógio no quintal.
Respondi que tinha a chave, que iria fechar a porta e que retiraria o relógio de corda do quintal. Tranquilizou-se. Eu não... Mal tive tempo de me preparar. De entrar no seu mundo, um outro mundo, um novo mundo...ou será este o mundo novo, aquele que nos espera a todos...

Respiro fundo. É preciso manter a calma. Mostrar a força. Manter o sorriso... Enquanto lhe dou o almoço, colher a colher, devagarinho, vou olhando em redor. A D. Emília já não sabe quem é, onde está, quem foi... Deram-lhe 3 comprimidos, ela colocou-os na mão e deitou-lhes um copo de água em cima. A D. Vitória vive no sofá ao lado. É nova ali. Veio substituir quem já partiu. Quis saber o seu nome. Ela respondeu-me apenas: - É a vida! Sim, pensei eu aterrada. É a vida!

A D. Luísa está lúcida mas não anda. Vive há décadas numa cadeira de rodas e tem o sorriso mais bonito que eu já vi. Enche-me de beijos e eu a ela sempre que nos vemos. Pergunta-me sempre: - Então veio ver a sua mãezinha?  Respondo-lhe que sim e ela continua sempre a sorrir... A D. Ana também está lúcida. Tem um problema que lhe dificulta o andar. Devora livros. Levo-lhe livros. Vê-me e diz-me: - Gosto tanto de a ver. E eu a si. - respondo-lhe, fazendo-lhe uma festa no rosto. Olha para as pernas paradas, olha para mim e atira:
- É andar enquanto há pernas, menina!
A D. Guadalupe chama pela filha o dia inteiro. Ouço uma funcionária dizer-lhe que a filha não está ali e que não pode chamar por ela... A D. Guadalupe faz que ouve e que percebe mas é mentira. Continua a chamar pela filha até ser noite... Sim. - pensei aterrada. É a vida.

Levanto-me e passo pela D. Francisca. Tem 80 anos e bate palmas o dia inteiro enquanto cantarola uma canção que só ela entende. Olha bem para dentro de mim e diz-me do nada: - Eu era muito bonita quando era nova. Respondo-lhe que ainda é e ela, feliz, continua a bater palmas...

É uma sala ampla e branca com várias janelas para a planície. A um canto,  de olhar meigo e impotente, senta-se ela. Pede-me ajuda com o olhar... Entro por ela pelos afetos que nos unem. Sei que esses estão intocáveis. Quero raptá-la e trazê-la comigo. Parece perceber. Olhou para os meus pés e, subitamente ouço:
- Estes sapatos são deste ano? Rejubilo de felicidade pelo momento de lucidez. Por pouco tempo... A chave, pergunta-me, a chave... já fechaste a porta?

Deixei a Casa de Repouso. Olhei de frente a planície. Já não olhei para o céu. Deixei que as lágrimas caíssem a rodos...  É a vida... É andar enquanto há pernas...

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