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5.05.2012

Cuba...Um país velho num mar azul


“Já lá estou antes de chegar e ainda ficarei depois de ter partido.”
                                                                                                                                                     Diderot 

A Cuba não tinha ainda resolvido ir. O mundo é tão infinitamente vasto e a sensação que me assalta é que não vou conseguir conhecer senão uma ínfima percentagem.
Surgiu esta oportunidade. Não se nega nunca a possibilidade de conhecer algo de novo. E muito menos numa altura em que os dias são cinzentos,  escolher roupa de verão, comprar um protector solar e partir para praias de areia branca e mar azul é rejuvenescedor.

Dou por mim enroscada já numa manta azul e a ouvir a rota prevista: Açores, Bermudas, Nassau e Varadero. Neste momento, a sensação infernal e trepidante pelo corpo e pela cabeça, provocada por este monstro a levantar voo para 9 horas de viagem. Continuo a escrever, a caneta tomba, os ouvidos palpitam e pela minha mente passa algo indecifrável, ruído, mal-bem estar, receio, prazer. Tudo isto me assalta em catadupa como a um barco sem almirante. O meu coração está cheio e a minha mente repleta. Todas as sensações do mundo se misturam em mim neste momento. 

A visão de Havana enternece e revolta. Uma vaga de tristeza passa por mim. As cores esbatidas das casas contrastam com o colorido das roupas de quem passa.  Lembro-me da rumba e da salsa, do ritmo vertiginoso de quem dança num país que vive devagar. Passo pelo município da Playa, um dos 15 que tem Havana. Alguns hotéis de 5 estrelas ferem a paisagem. A zona rica de Havana, dizem-me. O bairro de Miramar fora o bairro das pessoas ricas que o abandonaram aquando da revolução na esperança de aí voltar. Hoje essas casas são, na maioria, embaixadas. Cruzo a 5ª avenida; parece irónico como Cuba suporta o legado cultural dos E.U.A.: o dólar, a 5ª avenida ou Avenida de las Americas.
Desespero calmamente com as longas esperas para entrar e sair do país. Pouco ou nada comprei. E ainda bem. Senti-me, bruscamente, menos consumista. Tudo teria sido pago só e apenas em dólares americanos num país embargado pela América do Norte.

Em Cuba não há grandes diferenças sociais. A grande elite é formado pelo Governo. Fico com vontade de rir.Fundada em 1519, já em 1492 Cristovão Colombo tinha alcançado o oriente de Cuba. O povo cubano resulta de uma miscigenação entre três culturas diferentes: a espanhola, a indígena e a africana. É isto o creolo. Aquele que se passeia vagarosamente pelo Malécon, os sete quilómetros à beira-mar
Onde namorados, crianças, velhos, turistas e prostitutas se misturam indiscriminadamente.
É como se tivessemos parado no tempo. Mais precisamente nos anos cinquenta. Havana move-se calmamente. Os Lada e alguns Cadillac deslizam sem businar. Fidel Castro discursa horas indefinidamente no seu tom cadenciado e monótono.

Os velhos sentam-se nos portais, fumam charuto e deixam os dias passar.
As praias são muito azuis. O sol brilha todos os dias, embora nem sempre com a mesma vontade. Os hotéis vivem. O resto não. Varadero, a Playa Azul, é o destino preferencial dos turistas. É pecaminoso ver as lojas de jóias do Hotel quando lá fora o leite é racionado e o ordenado mínimo escandaloso.
Observo as prostitutas que nada pedem em troca. Lembro-se de São Cristovão de Havana cujo centro histórico é património da Unesco, dos pedintes de olhar sorridente e canso-me de ali estar. Lembro Hemingway. O Velho e o mar. 

É isso Cuba – um país velho num mar azul.

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