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5.22.2012

DISCOVER WILDLIFE... BE A TEACHER

Há dias perguntaram-me:
- Tu és prof, não és?
- Sim, há 24 anos. - respondi.
- Pois... vocês têm imensa sorte... têm 3 meses inteiros de férias...
- Não, isso era antigamente... - respondi séria mas sarcástica. E acrescentei: Agora com as reformas, passámos a ter quatro... e às vezes cinco...

E nada mais expliquei a este ser sobre  a quantidade de férias de um professor. Como também não lhe expliquei que quem trabalha numa escola difícil, vive diariamente na corda bamba, espreitando a beira do abismo desde que entra até que sai. Não o seu próprio abismo... Mas o abismo dos seres que se amontoam nas salas de aula, cujas vidas não tento sequer decifrar sob pena de me deixar tocar. Sigo assim em frente, dia a dia, fazendo de conta que não percebo as angústias que os rostos me trazem, todas as manhãs, quando entram na sala e me olham, de olhar meigo ou agressivo, mas sempre expectante das palavras que eu tenha para lhes dizer. E eu às vezes não lhes digo nada. É melhor para todos...

O M. desde a primeira aula que me provoca. Não apenas a mim. Provoca todos. Dos professores aos colegas. Avisaram-me. Cuidado com o M. Mas não me intimidei. E logo na primeira aula julgo que o desarmei... Terminou a aula a dizer-me: - A stora tem um nome bué giro e é bué moderna e simpática...
Ok. - pensei para com os meus botões: este já cá canta... ou se quiserem, em gíria dos profs, é menos um a chatear-me os miolos...
Assim tem sido. Vivemos vários meses de um relacionamento aparentemente calmo. Houve dias em que o mandei calar. Houve dias em que ele não se calou. Houve dias em que lhe chamei a atenção. Houve dias em que me pediu desculpa. Houve dias em que me sorriu. Houve dias em que lhe sorri. E houve dias como o de hoje em que o M., há muitos meses a espreitar o seu próprio abismo, se atirou por ali abaixo...
O M. é um menino de 15 a fazer 16 anos... É bonito e inseguro. É nervoso e opinativo. Gosta de tudo e não gosta de nada. Revolta-se contra todas as formas de injustiça, por mais ténues que sejam. Vive numa guerra interior profunda. Sempre que o vejo, penso que ele se vai atirar do precipício... Mas em vez disso, ele sorri... ele sorri-me...
Hoje o M. desentendeu-se com um colega da turma. Nada de especial. Um qualquer desentendimento sem importância aparente. Não para o M. que sacou da sua naifa e esfaqueou o outro.

Ok, pensei. Há muito que eu temia este resultado. Ao menos, não esfaqueou um prof. Ao menos, penso egoísta, não me esfaqueou a mim. Parece que gostou do meu nome...

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