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11.07.2014

SPUTNIK, MEU AMOR


Sumire lutava literalmente com unhas e dentes para se tornar escritora (p.9). Nada se podia intrometer entre ela e a escrita tal como nada se pode intrometer entre nós e a nossa essência.
Cada um tem o seu veículo para se expressar e, em Murakami, ora a escrita ora a leitura surgem como canais de excelência para a introspecção, a reflexão, a busca do eu que se escapa sem nos apercebermos...
O amor em Murakami, sempre envolto numa capacidade de nos desestruturar primeiro para depois nos arrumar por dentro. Sumire assume a solidão que vem do Amor. Quanto mais longe, mais só... quanto mais ama mais se isola e mais procura a sua escrita. Sputnik, meu amor: os enredos do amor. Amar sem desejo, gostar sem amor, desejar sem amar. As personagens interligam-se numa teia de afectos desencontrados...
Para seguir o amor, Sumire teve de se libertar ao máximo da sua bagagem. Porque quando o Amor chega, apercebemo-nos da inutilidade da tralha que se transporta e sabemos que é hora de a largar. Sumire só não conseguiu libertar-se das palavras, essas amigas invisíveis que a acompanham desde criança e que lhe deram a consciência da sua identidade:
Tem sido sempre assim, desde miúda. Quando havia uma coisa que não percebia, agarrava, uamas atrás das outras, nas palavras espalhadas a meus pés e alinhava-as, por formaa com elas construir frases. Quando não conseguia, voltava a espalhá-las, a arrumá-las segundo outra ordem. À força de repetir esse gesto vezes sem conta, tornei-me capaz de pensar sobre as coisas como o comum dos mortais. Para mim, escrever nunca foi difícil. Enquanto as outras crianças se divertiam a apanhar pedras ou bolotas, eu escrevia. Tão naturalmente como respirava.
 in Haruki Murakami, SPUTNIK, meu amor, p.148.

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