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4.03.2014

O VESTIDO AZUL


A minha mãe sofria da doença de Parkinson à mistura com Alzheimer. Por isso, dada a sua situação de demência foi internada num lar onde eu e a minha a visitávamos aos domingos e sempre que podíamos. Numa dessas visitas ao lar, pediram-me para levar livros e revistas com vista a criar um espaço de leitura e lazer. Não hesitei. Recolhi alguns livros e muitas revistas que espalhei orgulhosamente pelas mesas. No fim-de-semana seguinte, ao visitar a minha querida mãe, deparei-me com várias senhoras, idosas e doentes quase todas, a folhearem de olhos a brilhar as páginas de Máximas, Vogues, Marie Claires e afins que vou acumulando, com ar de quem redescobre o sabor das coisas boas… das coisas belas… que a doença e a velhice lhes tirou. A minha mãe, que sempre gostou de moda e desenhou durante muitos anos, os seus próprios modelos (e os meus…), quando eu me preparava para regressar a Lisboa, surpreendeu-me com um momento de sensatez, raro no seu quotidiano de demência, e disse-me, com os olhos a brilhar:
- Vi numa daquelas revistas que trouxeste um vestido que quero fazer. Compra-me, se faz favor, tecido em seda azul, linhas do mesmo tom e uma tesoura que corte bem…
Deixei o lar, mais uma vez, com lágrimas nos olhos. Mas desta vez, eram lágrimas diferentes… Lágrimas de cumplicidade para com quem percebe o valor que um simples vestido azul pode ter na vida de uma mulher!

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