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8.01.2012

O BASILISCO

Para quem não tem família próxima, os amigos podem mesmo ser a verdadeira família. Eu, felizmente, tenho-os de todas as espécies. E posso afirmar que sim, que há amigos fiéis. Entenda-se aqui por fidelidade: + permanência no tempo (mais ou menos 20 anos) + raridade dos encontros (pode variar de uma vez por semana  a uma vez por ano) + qualquer traço de loucura positiva + sensação de que foi ontem que os vimos pela última vez.
Não sei se é esta a fórmula da fidelidade na amizade. Talvez não, dirão alguns. Mas isso nada me interessa. Aliás, eu até nem gosto particularmente de fórmulas. Neste caso, o reencontro, quando acontece, deixa-me com esta inevitável sensação que só a verdadeira amizade consegue: deixa-nos felizes e não nos cobra nada.
Caso 1 - Afastamento desde a faculdade: 1984. Perdemo-nos o rasto desde 1997. Reencontrámo-nos há dias. Pusemos 15 anos em cima da mesa e retomámos a conversa no sítio exato em que a tínhamos deixado.
Caso 2 - Conheço-mo-nos há 20 anos e desde então vamo-nos acompanhando à distância, com alguns raros encontros pelo meio, quando as vidas o permitem. E ultimamente, têm permitido pouco... A pessoa desde caso 2 é aquela a quem recorro sempre que preciso de um documento audio ou video ou papel que não existe em mais local nenhum. A sua casa é um labirinto porque nela se guarda tudo. E é literalmente tudo. Já lá contei 14 listas telefónicas de anos atrasados, todas as revistas do Expresso, sim, todas, repito todas, caixas e caixas de bonecos devidamente selados, oferta das Happy Meals. Para não continuar esta lista até ao infinito, digo apenas que lá também se encontram todos os recibos do Multibanco desde que tem cartão e tem-no há mais de 20 anos... Um dia, perguntei-lhe a razão dos seus preciosos tesouros. Hesitou por breves instantes mas encontrou a resposta, como encontra sempre o que se dedica a procurar... Alturas houve em que colecionava animais, mais especificamente, peixes, aranhas, rãs, sapos, tartarugas, iguanas e outros répteis horrorosos.
Tem 1 assoalhada só para guardar jornais e revistas. Outra só para aquários e terrários. Outra só para equipamento informático: tem vários computadores ligados a vários ecráns gigantes que trabalham todos ao mesmo tempo, a mostrar tudo o  que vai pelo mundo, dentro e fora dele...
De todos os bichos que lhe conheci, apenas um me fascinou. Um Basilisco que quando lhe fazíamos festas, fingia-se morto. Depois, passado o perigo, acordava! 
Amigos loucos? Claro que sim! Com uma dose necessária de loucura que ataca devagarinho mas parece ser essencial à normalidade. Loucura dona de uma lucidez estonteante e de um coração em forma de ouro.
Há pessoas assim. Diferentes do resto. Capazes de mudar o mundo. Mas são geralmente estas a quem a máquina-mundo trucida lentamente com as suas rodas dentadas...



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