Porque a vida não é um fenómeno lógico e a criatividade é um produto derivado do sonho...
7.01.2013
MEDO
MEDO. Agora vejo isso em ti, quando dormes, quando enganas, quando te esquivas, quando te escapas, quando procuras o café,a multidão. Relativamente a nós os dois, não consigo compreender porque não havia alguma rzão para a nossa relação ser trágica. Não havia nenhuma... Mas entretanto, ela tornou-se trágica para mim, porque nada fazes para torná-la real; tudo o que fazes dissipa, dissolve, decompõe a nossa relação. Tu volatilizas.
Anais Nín e Henry Miller, Cartas de Amor.
5.22.2013
RECEITA INFALÍVEL
Eis a única receita que nunca desilude:
Duas cadeiras e uma mesa, uma garrafa de vinho tinto, uma açorda de marisco, um bom gelado de chocolate e, diante de ti, a cara de um/a amigo/a, um rosto que conheças bem, um daqueles que só de vê-los nos devolvem a calma. E a alma!
O QUE RESTA
A velhice, disse Borges, pode ser o tempo da nossa felicidade; o animal morreu, ou quase, e ficam o homem e a alma.
SONO E SOL
A melhor receita para curar uma dor de amor é pôr a cara ao sol, a seguir esperar pela noite e dormir 12 horas... quiça 13...
Sono e sol e esperança fazem maravilhas... Nunca duvides...
JEJUM
Ninguém conhece as receitas da felicidade. Na hora da infelicidade de nada servirão os mais elaborados cozinhados para satisfazer alguém. E até, se em algumas a tristeza é motor do apetite, não convém que nos dias de aflição se empantureem de comida. Na infelicidade, a comida não é assimilada e cria gordura.
Saudável costume é o jejum nos dias de desgraça.
Héctor Abad Faciolince
3.12.2013
MÃE
Dou-te tudo o que tenho através das
palavras vividas com carinho delicadas sentidas oferecidas a ti não
sei porquê não quero saber porquê que não estou interessada apenas sei que me
faz doer o peito senti-lo de peito apertado preocupando-me e dando-te o meu
pouco tempo ou muito tempo ou só tempo que ele é sempre o mesmo e com ele brinco
aos balanços e balancetes de uma ou várias vidas vividas com ou sem alma - que
me interessa isso - desde que a acidez não vingue e que o meu destinatário não
chore que não gosto não quero o que sei
da dor é o que há para saber da dor é dor e a dor é sempre igual em qualquer
latitude não te faço chorar, com o carinho este carinho que surge do nada e sem
saber porquê actor ou piegas ator-piegas só ator não não há atores tão
verdadeiros nem o Pessoa que fingia aquilo que nós sabemos que não fingia
não sou não serei bálsamo seu nem de ninguém apenas uma voz que atravessa a
noite e lhe chega de mansinho para lhe dizer ao ouvido que lhe querem bem que
lhe quero bem que ela te quer bem, meu querido.. sim, sim que há mensagens que
me enviam as estrelas e o céu e o mar e a terra toda inteira me grita que sim
que sim que somos pouco somos nada e este nada que é tudo merece mais do que
este rodopio em chuva ácida em que sem querer se cai e eu não gosto não gosto
que dances nessa chuva e não perguntes porquê não me perguntes porquê não me
perguntes porquê ... eu não gosto de porquês... eleita de atenção sim
basta de ti basta de mim basta
de dor
de rodopios
de dúvidas
de desalmas
de
lágrimas
3.04.2013
TALES OF ORDINARY MADNESS
I felt like crying but nothing came out, it was just a sort sad
sickness, sick sad when you can't feel any worse. I think you
know it. I think everybody knows it now and then. But I
think I have it pretty often, too often.
Charles Bukowsku, Tales of Ordinary Madness
DEPRESSA E MAL
E foi então que ela o olhou de cima a baixo depois de o ouvir falar, e disse para com os seus botões:
- Este deve fazer sexo como fala. Depressa e mal.
O SENHOR IBRAHIM E AS FLORES DO CORÃO
Em Paris, nos anos 60, Momo, um rapazinho judeu de doze anos, torna-se amigo do velho merceeiro árabe da rua Bleue. Mas as aparência iludem: o Senhor Ibrahim, o merceeiro, não é árabe, a rue Bleue não é azul e o rapazinho talvez não seja judeu.
"- Porque nunca sorris, Momo? - perguntou-me o Senhor Ibrahim.
Esta pergunta era um verdadeiro murro, um golpe tramado, não estava preparado para ela.
- Sorrir é coisa para pessoas ricas, senhor Ibrahim. Não tenho meios para isso.
Para me aborrecer começou precisamente a sorrir.
- E julgas que eu sou rico?
- Tem sempre notas na caixa. Não conheço ninguém com tantas notas à frente durante todo o dia.
- Mas as notas servem para pagar a mercadoria e a renda. Sabes, pouco me resta no fim do mês.
E sorria ainda mais, como que para me provocar.
- Senhor Ibrahim, quando digo que é uma coisa de pessoas ricas, quero dizer que é algo para pessoas felizes.
- Pois bem, é aí que te enganas. É o facto de sorrir que nos faz felizes.
- Uma ova.
- Experimenta.
- Uma ova, já disse.
- És bem educado, não és, Momo?
- Que remédio, senão apanho uns tabefes.
- É bonito ser bem-educado. Amável é ainda melhor. Experimenta sorrir e logo verás.
(...)
No dia seguinte comporto-me mesmo como um doente que tivesse sido picado toda a noite: sorrio a todos.
- Não, senhora doutora, peço desculpa mas não compreendi o exercicio de matemática.
Pumba: sorriso.
- Não consegui fazê-lo!
- Pois bem, Moisés, vou explicar-te outra vez.
Nunca tinha visto uma coisa assim. Nada de descomposturas, nem de avisos. Nada.
Na cantina...
- Não se importa de me dar mais um pouco de creme de castanha?
Pumba: sorriso.
- Sim, com queijo fresco...
E obtenho-o.
(...)
É a embriagez. Já nada me resiste. O senhor Ibrahim deu-me a arma absoluta. Metralho toda a gente com o meu sorriso. Nao me tratam mais como um chato.
(pag.22)
2.25.2013
2.19.2013
O BONECO
"Influenciável. E oco. É o que tu és: um cabrão de um influenciável oco. Afirmas o que queres negar e negas o que queres afirmar. Influenciável. É o que tu és: um passador no tráfico de influências (nem a estatuto de traficante tens direito); o tipo que recebe a influência de braços abertos e a distribui por inocentes sem pensar. E sem pesar consequências ou danos – tantas e tantas vezes irremediáveis.
Influenciável. E oco. É o que tu és: um títere, um boneco movido pelos cordéis da ambição e engonços do poder. A fantochada corre-te nas veias e sentes que tens veia para manobrador – tu, logo tu, ó manobrado mor. É o que tu és: um imitador de gestos humanos, um bufão que se deixa levar facilmente por outrem palhaço- só o mando de outro de inspira e te faz agir. Então é assim, autómato: admite, em definitivo, que és um influenciodependente. Vai-te tratar.
A influenciodependência: esse aditivo que destrói amores- que já destruiu o teu amor. E o que precisas, ó bonifrate, é de uma droga de amor. Sim, uma droga de amor. E das pesadas. Uma boa trip de amor, bem injetada, e que te faça correr amor nessas veias; o amor que assumiste como perdido, mas que te corre no sangue- ainda. E és compatível, totalmente compatível, absurdamente compatível. Só precisas de desatar – mesmo que seja à dentada- o garrote que sempre te aperta o espirito e voar. Vá, fantoche, deixa-te transplantar e recebe, na plenitude do teu eu, um novo sangue: sangue tipo A- sangue tipo Amor."
Rui Miguel Mendonça
2.17.2013
FELICIDADE
Por vezes, penso que sou feliz. Hoje, por exemplo, acordei com sol, o que à partida é meio caminho andado para a felicidade; celebrei o aniversário da minha mãe, o que também me deixa radiante; e até consegui, com relativa facilidade, antever uns dias de férias. Possuo, desta forma, e de acordo com as mentes mais pragmáticas, todos os ingredientes necessários para a dita cuja.
Ora bem, a verdade é que tenho dias. Como a Cecília Meireles, tenho fases, tal como a lua. E tanto posso acordar com a sensação de que as torres gémeas voltaram a cair, como com a ideia de que tudo é fácil, porque para mim tudo é possível.
Uma vez confessei sentir-me feliz. Foi um desabafo, num daqueles dias em que acordo plena de energia e grata ao universo por existir. E leve. Extremamente leve (o que para mim é um grande sinal de felicidade). Mas alguém me disse (não me lembro já quem) para ter cuidado com o que dizia. É verdade que há pessoas que cultivam a tristeza. Mas, não é bem o meu caso. Nada me agrada mais que umas boas gargalhadas decorrentes de uma boa dose de non sense. E tenho, felizmente, alguns amigos/amigas peritos nisso. Confesso, porém, que há dias em que sinto escurecer por dentro. Mas faço sempre o possível (e o impossível) por renascer no dia seguinte, logo de manhãzinha.
2.10.2013
QUASE QUASE
Andou o caos por aqui. Sabes a que me refiro. Espreitei apenas o abismo quando te conheci. E agora? Agora estou quase quase a atirar-me por aqui abaixo...
OS DEZ MANDAMENTOS
Parece que são 10, os mandamentos para uma relação minimamente estável e eu não sabia:
1. Ser correspondido
2. Ter-se coisas em comum
3. Conhecer o outro em vez de o imaginar ou projetar à nossa medida
4. Não nos matar de tédio
5. Apresentar as regras do jogo antes de jogar
6. Se já o fez antes, pode voltar a fazê-lo agora
7. Negociar e nunca sacrificar
8. Não guardar segredos
9. Ser igualitária
10. Fazer-nos sentir felizes
1. Ser correspondido
2. Ter-se coisas em comum
3. Conhecer o outro em vez de o imaginar ou projetar à nossa medida
4. Não nos matar de tédio
5. Apresentar as regras do jogo antes de jogar
6. Se já o fez antes, pode voltar a fazê-lo agora
7. Negociar e nunca sacrificar
8. Não guardar segredos
9. Ser igualitária
10. Fazer-nos sentir felizes
INTIMIDADES
Todos nós tememos a intimidade ainda que não tenhamos consciência disso. Somos estranhos uns aos outros. Somos estranhos a nós próprios, talvez porque não sabemos quem somos. Não fazemos um trabalho sobre a nossa individualidade. Passamos o tempo ocupados em coisinhas inúteis e deixamos o principal trabalho, o mais valioso, o mais importante - conhecermo-nos a nós mesmos - para trás.
Passamos anos e anos reprimidos, em relações (pessoais, familiares, sentimentais, profissionais) adormecidas, se não mortas, acatando as regras e as imposições que nos foram impingindo ao longo dos tempos.
Esquecemos a nossa fragilidade. Ignoramos que a vida pode quebrar-se a cada instante. Esquecemo-nos de nos aceitar tal qual somos. As pessoas comprometem-se pouco ou da maneira errada. Acredito na liberdade individual. Nos relacionamentos em que cada ser mantém a sua individualidade e a sua liberdade mais íntima e profunda. Desconfio das relações em que os dois se tornam um. Há "deves" em excesso por este mundo. Há muitas faces. Olho em meu redor e observo. As pessoas não são o que dizem ser. E, sobretudo, não se aceita quando há pessoas que ousam ser diferentes. Imediatamente, recebem rótulos. Penso, contudo, que são essas (poucas) pessoas que estabelecem a diferença no mundo... as que têm em mãos o seu desenvolvimento pessoal. Há pessoas que passam a vida a dar lições de moral ou a tentar mudar os outros - as mesmas que nunca chegam a conhecer-se a si próprias. Vivem em linha recta. Fazem o que se lhes pede, o que "devem" fazer... e um dia, chegarão ao fim, sem terem percebido o porquê da sua passagem.
São os caminhantes, os viajantes, os homens da pradaria, os que se questionam, os que (se) procuram... que recebem o meu apoio e o meu aplauso. Mas o conhecimento de nós próprios só me parece possível em profunda solidão porque, regra geral, tudo quanto sabemos de nós é a opinião dos outros. Ninguém pode penetrar no nosso interior mais profundo. Nem os amantes entram no âmago da nossa existência. Aí, é onde estamos inevitavelmente sós. E a prova disso, são as rupturas amorosas após 2, 5, 10 ou 20 anos, quando se constata termos passado décadas com um estranho ao nosso lado no sofá.
A vida flui, como um rio, vai sempre mudando os seus estados de alma. Não importa a consistência... porque só a mentira é consistente, A verdade, essa, está sempre a mudar. Deus, ou lá o que/quem seja, devia lançar novamente os dados e começar de novo. É nos recomeços que reside a verdadeira energia criativa da humanidade.
2.07.2013
JÁ NINGUÉM SE APAIXONA, PÁ?
“Quero fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em “diálogo”. O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam “praticamente” apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do “tá tudo bem, tudo bem”, tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso “dá lá um jeitinho sentimental”. Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.
O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A “vidinha” é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha – é o nosso amor, o amor que se lhe tem.
Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.
A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.”
Miguel Esteves Cardoso
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