Número total de visualizações de página

11.15.2012

AS MISSIONÁRIAS

Três missionárias, todas freiras, caminham pela rua e uma está a descrever, com as mãos, as enormes toranjas que viu em África. Depois, a segunda, também com as mãos, descreve as enormes bananas que viu na Índia. A terceira freira, um pouco surda, pergunta:
- Padre quê? :)

AUDIÇÕES

Após vários dias, muitos dias, excessivos dias no arame, vomitei de vez tudo o que me incomodava e levantei-me. Não sei como tudo começou. Já não me lembro. Não sei se foi o silêncio que me assolou ou se fui eu que assolei o silêncio. Sei apenas que este, o silêncio, só é autêntico quando estamos completamente sozinhos, isolados do mundo... Mas aprendi também que estar só nada tem a ver com solidão. Estar só é o ponto mais alto da consciência. Percebemos melhor de onde vimos e para onde queremos ir. E eu percebi que estava a perder as asas. Queria voar com uma das asas presa nas asas de alguém. Mas no momento em que perdemos as asas, somos apenas mais um...  Agora, hoje, amanhã, será a altura certa para recomeçar... embora a hora certa nunca chegue. Estamos sempre todos à espera do momento certo, da constelação certa... para recomeçar... Sei agora, mesmo que pareça estranho, que linhas paralelas também se encontram... Mas o problema, o meu grande problema, o meu maior problema foi querer acreditar... esquecendo que quando queremos acreditar, ficamos cegos.

11.11.2012

ARMADILHA

Depois, ela voltou para casa e deu um golo generoso no seu brandy. Um. Depois outro. Só um brandy lhe clareava o pensamento... agora mais confuso do que nunca. Havia já várias semanas que o fazia. Caminhava todos os dias para o vazio. Tinha ficado com o coração cheio de fantasmas e não sabia... Sentia que caíra numa armadilha. A maior de todas as armadilhas possíveis.

11.05.2012

RODOPIOS

Vou hoje rodopiar a rotina, hoje que já não é de hoje, hoje que sobra para um antecipado amanhã esmerilado hoje. Por aqui...
E gosto de rodopios à rotina...De a trapacear! Essa rotina veloz, mortal, letal que nos corroi devagar...
E gosto sobretudo de quem assume essa trapaça, rodopiando nas palavras...
Gosto de me gostar rodopiante, quase imparavelmente senil... onde me sinto acordada, trapaceira dessa rotina interrompida por palavras, também elas rodopiantes... senis, cheias de alma porque precocemente amassadas nas noites destes dias...
Gosto deste rodopio louco... Louca, eu... loucos todos os partilheiros no deserto ilimitado...neste deserto dos dias que passam velozes, loucos, incessantes.
Tu, em tempos partilheiro, que temes? Que medos te assaltam? Que temes, homem de alma cativa rodopiando sobre ti próprio? Que temes tu, amante de dúvidas... amado por desafios?
Onde te encontro, agora que nos perdemos, quando esta dúvida me assola e segue por onde serpenteia a alma, a minha, a tua, essa coisa vigilante do peito, livre, livre... o peito... a alma... tu...
E eu, colecionadora de sonhos... que só os pode colecionar quem os consegue  viver, acordei sem ter dormido, misturando todas as memórias numa só, nessa viagem que  me persegue, nos persegue... a recuperar o que se perdeu, que se recupera sempre o que não se perdeu...

11.04.2012

O MARIDO

Um dia, o marido dissera-lhe:- Ou eu ou o gato.
Ela às vezes lembra-se daquele marido...:)

DIAS

Claro que há dias mais compridos do que outros ... Mas ela agora andava a ter dificuldade em resgatar a sua paz. Queria dormir vários meses seguidos e acordar sem se sentir um pêndulo desengonçado. Era como um espelho embaciado por uma imagem difusa que queria apagar sem conseguir. E a única forma de ultrapassar a angústia será viver sem voltar a pôr-se em perigo...

O GAMANÇO

Numa das últimas aulas que consegui dar a custo, turma arisca mas simpática, clima ameno, entendiamo-nos apenas porque eu não exigia muito, o mínimo para manter o sistema a funcionar e sem introduzir grandes furos na rotina, discutia-se a crise, o desemprego, a situação atual. A dada altura, um aluno de olhos vivos e cabelo estranho, vestido de nikes da ponta dos pés ao alto da cabeça, confronta-me:
- A stora compra tudo? - atirou-me.
E sem me deixar responder, avança
- Nós não, nós gamamos...

11.02.2012

O DESAMOR

DIVÓRCIO, RUPTURA
 = 
DESAMOR COM 8 LETRAS.

OS NOSSOS MORTOS


Mesmo que as pessoas que amamos continuem vivas, é preciso concluir as histórias com os mortos ou estas nunca terão fim...

ONE HUNDRED PERCENT


A boy and a girl were playing together. The boy had a collection of marbles. The girl had some sweets with her. The boy told the girl that he will give her all his marbles in exchange for her sweets. The girl agreed.
The boy kept the biggest and the most beautiful marble aside and gave the rest to the girl. The girl gave him all her sweets as she had promised.
That night, the girl slept peacefully. But the boy couldn’t sleep as he kept wondering if the girl had hidden some sweets from him the way he had hidden his best marble.

Moral of the story: If you don’t give your hundred percent in a relationship, you’ll always keep doubting if the other person has given his/her hundred percent.. This is applicable for any relationship like love, employer-employee relationship etc. Do not regret giving your hundred percent to everything you do even if later you will feel betrayed...

10.31.2012

10.28.2012

ALENTEJO SEEN FROM THE TRAIN


Nothing with nothing around it
and a few trees in between
none of which very clearly green
where no river or flower
pays a visit.
If there be a hell, I’ve found it.
For if ain’t here,
where the Devil it is?


Fernando Pessoa, Alentejo seen from the train


TEQUILA COM LIMÃO

"Durante a época em que as três amigas se entregaram à celebração dos seus divórcios, habituaram-se a comer juntas às sextas-feiras e continuarem na farra até ganharem ou perderem ou perderem-se. :)
Depois dormiam as três em casa de alguma delas e no dia seguinte tomavam o pequeno-almoço a conversar.
Entre elas, Amélia era a melhor bebedora de tequila. Por isso bebia mais do que as outras e antes de tomar o café, de saída para o trabalho, perguntava às amigas:
- Oiçam, e eu diverti-me ontem?":)

Ángeles Mastretta, Maridos

DÚVIDA: O MARIDO OU O AMANTE?

SUBLIME:
"Nessa noite, iniciaram as conversas que duraram meses. Ouviram também a  opinião das suas três melhores amigas. Às vezes uma de cada vez e outras vezes todas juntas. De nenhum outro assunto se falou tanto. Num dia ganhava Juan e noutro, o marido. Num dia reinava a prudência e noutro, a audácia. Num dia, o insulto, e noutro, o perdão. Dizia-se de tudo: que se largasse Juan não suportaria vê-lo com outra mulher; que esa simples ideia a fazia estremecer; que nada a faria mais infeliz; que a soberba é mais indestrutível do que o álcool, que viver com isso pode ser insuportável; que viver com o marido era uma matéria já aprendida; que o marido também não era nenhum santo, embora parecesse mais estável e se lhe conhecessem menos confusões; que um falava pouco e o outro demasiado; que um deles tinha habilidades e conhecimentos domésticos que já nenhum homem tem; que o outro gostava de viajar; que Juan era versátil e os negócios o entretinham; que um deles era divertido e o outro reincidia; que Juan er a o único disposto a passar uma tarde inteira, com ou sem chuva, abraçado a ela; que ela iria sentir falta dos filhos; que os dele poderiam estar bem ou mal educados; que pensasse onde passaria o Natal; que não importava qual das casas tinha um jardim maior; que qual dos cheiros lhe era mais imprescindível; (...) que um falava de si próprio trinta e seis vezes em cada vinte e quatro horas e o outro nunca dizia o que pensava de si mesmo, muito menos dela. Que Juan era alegre e o seu marido ensimesmado; que um era bom conversador e o outro bom observador; que Juan tinha acessos de mau génio mas a nuvem negra das suas fúrias era curta; que o marido, pelo contrário, nunca estava aborrecido mas também nunca estava feliz; se alguém que joga dominó seria de mais confiança do que alguém que joga golfe; se algum deles a fazia sentir-se mais necessária; se isso seria um elogio ou uma dependência; por fim, e não menos importante, que um encontrava mais depressa o seu clitóris do que o seu ponto G e vice-versa (...)"

Ángeles Mastretta, Maridos, p.22-23

10.27.2012

FARTA

Farta de gente armada ao pingarelho. Farta de tecnologia. Farta da Troika. Farta de gente sem cor. Farta de ténis Nike. Farta de de fruta sem sabor. Farta de gente sem humor. Farta de que só se ouve a si próprio. Farta de animaizinhos mutilados no facebook. Farta de fiambre. Farta de iogurtes com pedaços. Farta de tv. Farta de gente que em vez de dialogar tem monólogos à vez. Farta de usar mala. Farta de políticos. Farta de gente que ouve música pimba no carro e não fecha os vidros. Farta de queixumes. Farta de egoístas. Farta de ti...

10.26.2012

STOP

Dolência. Preguiça. Pausa.

CORRER RISCOS

Comecei um curso de criatividade pela Universidade de Stanford. Quero que a minha vida  sirva para construir uma manta de retalhos e não para me limitar a completar mais um puzzle. Porque os dias que correm são cinzentos. A maioria. Outros nem cor apresentam. E eu só posso continuar à procura da criatividade perdida. Tento rodar-me de pessoas criativas mas são tão poucas...Tento manter-me alerta; escrevo: coisas sem nexo mas ainda escrevo; tento afastar-me do computador e olhar atentamente para o mundo lá fora; procuro bater os meus próprios medos; ouço música que nunca antes tinha ouvido, de todos os géneros; conheci pessoas novas: de diferentes culturas e línguas; procuro os filmes em estreia; vou a alguns sítios onde nunca tinha ido; quebro diariamente algumas regras e ainda não me arrependi. Acima de tudo, corro riscos... especialmente em noites de temporal.

10.25.2012

TU BRILHAS!


Era uma vez uma serpente que começou a perseguir um pirilampo. Este fugia da predadora, que não desistia facilmente. Mas a serpente estava disposta a ir até às últimas consequências para conseguir a sua refeição.
Um dia passou e a serpente não desistia. Dois dias se foram e a serpente continuava a sua perseguição ao já cansado pirilampo... E então, no terceiro dia, já sem forças para continuar a fugir, o pirilampo decidiu parar e fazer uma pergunta à serpente. E assim foi:
«Posso fazer-te uma pergunta, antes de tudo o que possa acontecer a seguir?», perguntou o pirilampo. «Bom, nunca nenhuma das minhas vítimas me fez tal abordagem, mas como tu foste corajoso, vou deixar-te formular a tua pergunta», respondeu o réptil.
- Por acaso pertenço à tua cadeia alimentar?
- Não. 
- Fiz-te algum mal para que me persigas?
- Não. 
- Então, porque é que queres devorar-me?
- Porque TU BRILHAS ! E eu não suporto ver-te a brilhar!



Uma boa razão para verificar quem o/a rodeia, quem o/a acompanha, quem o/a influencia e o/a aconselha.

10.20.2012

CREATIVITY COURSE



"Everyone has the key to their own
 innovation engine."




HÁ PESSOAS ASSIM

Há pessoas assim. Capazes de tudo para se salvarem a si próprias. Voláteis. Inseguras. Mutáveis. Como o vento...
Há pessoas assim... Frias. Incapazes de não magoar.
Há pessoas assim... Hábeis para destruir quem neles confiou.
Há pessoas assim... De sentimentos opacos, incapazes de se colocarem no lugar dos outros.
Há pessoas assim... São aquelas que para se salvarem, atiram-nos para o precipício. Empurram-nos, quando estamos de costas, rapidamente e sem avisar.
De seguida, fumam um cigarro e adormecem.

SORTE

Naqueles dias, ela teve a sorte de adoecer. Antes isso que definhar lentamente em frente aos outros. Assim, remeteu-se sozinha ao isolamento, à espera de que a dor daquela ferida aberta e em sangue vivo fechasse. Há doenças que os medicamentos não curam. Ela ainda tentou drogar-se todos os dias.. Descuidada, não temeu o contágio. Sem preservativo que a salvasse, deixou-se infetar... pelo sonho. Confundiu-o com a realidade. 
Por isso agora, até a sua ferida sarar, ela vai tecendo os dias como pode, atando as estrelas aos caminhos, os trilhos do acaso às montanhas, as montanhas às montanhas e todas as árvores ao céu.

10.18.2012

O CORAÇÃO É COMO UM HOTEL DE PUTAS


"A vida afetiva é a única que vale a pena.

A outra serve apenas para organizar na  

consciência o processo da inutilidade de   

tudo."  Miguel Torga

10.17.2012

TOMA LÁ, DÁ CÁ

Há muito tempo atrás, não no tempo em que os animais falavam mas num outro tempo, em que ainda havia subsídios de Natal e as pessoas pareciam mais  felizes, houve um homem, um grande amigo, hoje célebre figura televisiva, que me disse estas palavras que nunca esquecerei:
- A partir de hoje, tens de aprender que a única regra para seres feliz é dares à medida que recebes. Nunca dês mais do que aquilo que recebes porque um dia, depois de te terem sugado tudo o que tinhas para dar, vão-se embora sem uma palavra e tu ficas sem nada.
Eu não acreditei...

O CAMINHO DE REGRESSO

Por vezes, optamos pelo mais fácil. Pelo que não nos retire tempo. Energia. Paz. Chegar ao outro dá trabalho. Chegar a nós ainda mais. Muitos de nós ficam assim reduzidos aos seus mundinhos fechados, na esperança de que, da próxima vez, seja mais fácil.
Nunca temi o longe ou a distância. Nunca temi o trabalho. O esforço. A espera. Nunca temi ter de mergulhar dentro de mim, se fosse preciso. Por isso, talvez por isso, mesmo nestes momentos em que o vazio se quer instalar, olho à minha volta e orgulho-me de ser quem sou. De ser como sou. De ser assim. Capaz de ir ao mais alto dos promontórios mesmo que tenha de fazer o caminho de regresso sozinha, com os pés em ferida e uma gota, uma gota apenas de água no meu cantil.

10.15.2012

REVOLUTION NOW

Sometimes, there's no way out... no second chance, no time out...
Sometimes, you can't keep on to the past and you can't wait for the future...
Sometimes, it's now or never.

10.09.2012

NO MORIRÁS

Só escrevemos os livros que precisamos de escrever, ou que somos capazes de escrever e depois temos de largá-los, reconhecendo que o que quer que lhes aconteça de seguida não é mais da nossa conta. O mesmo se passa com as pessoas que amamos. Por vezes, temos de deixá-las ir... Por mais que as queiramos agarrar para sempre... por mais que perdê-las nos dilacere o corpo todo. E a alma também...

10.07.2012

FORRETA



Há dias assim. Em que nos sentimos sem energia e nos interrogamos se não a andaremos a gastar estupidamente em pequenos nadas. Decidi tornar-me absolutamente forreta no dispêndio das minhas energias e nada, nem ninguém que não mereça, me fará dispersá-las por aí, como areia da praia atirada ao vento.

RODOPIOS


Há dias em que o mundo rodopia sobre mim própria e eu não sei quem sou...

10.06.2012

CANSAÇO

Cansaço. É cansaço... 
Cansaço de esperar...
Por isso, doente e cansada, escrevo. Há quem escreva com medo de enlouquecer. Outros escrevem porque não sabem fazer mais anda. Outros ainda, como eu, escrevem porque não podem deixar de escrever... Escrevo para transpor a vida, para chegar ao outro lado, para me abrigar, para esquecer...

9.27.2012

FUROS NA ROTINA

Só consigo viver fazendo furos na rotina. Sou boa nisso. Quase expert. E quando perco essa capacidade por uns dias, perco o norte. Desoriento-me. Fico amarela. Surgem-me borbulhas. Crescem-me os pêlos. E em vez de falar, emito grunhidos estranhos que ninguém ao meu redor entende...

PALAVRAS

PALAVRAS. PALAVRAS. PALAVRAS. PALAVRAS. PALAVRAS. PALAVRAS. PALAVRAS. PALAVRAS. PALAVRAS. PALAVRAS.PALAVRAS. PALAVRAS.

MOMENTOS

Hoje perguntaram-me qual foi o momento mais intenso e belo de toda a minha vida... Pensei durante algum tempo e não encontrei resposta.  Pelo menos ali. Por isso engasguei-me. Hesitei. Tropecei em mim própria. 
Agora, à distância de algumas horas, reflito sobre aquela pergunta e concluo que foram muitos os momentos especiais da minha vida. Porque me rodeei sempre de pessoas especiais. Porque procurei sempre a verdade nos momentos. Intensos. Verdadeiros. 
Mas insisto na memória e procuro de novo o momento. Aquele momento. O mais forte de todos. O momento que estará comigo quando eu morrer. E encontrei-o, tímido,  secreto, escondido num local onde tem estado esquecido à minha espera...

O DIABO MORA NOS DETALHES

O diabo, o meu diabo mora nos detalhes. Nas palavras que não se dizem. No momentos não vividos. Nos silêncios das emoções... Há tempo suficiente na vida para as coisas mornas. Por isso, há fases em que só  o fogo me pode alimentar. E a paixão, antes de amolecer, deve viver-se intensamente. Porque as paixões são como cavalos selvagens... Querem voar.

AFOGAMENTO

Atravessei vales e subi montanhas. Passei pelos caminhos mais íngremes. Perdi-me em todas as encruzilhadas que encontrei. Nadei em todos os rios. Fui ter ao mar. Onde agora me encontro. Afundei-me. Afoguei-me. 
Naufraguei.

9.24.2012

MUDANÇAS

A gente habitua-se a tudo... especialmente às férias...)
Proponho que adiem setembro para dezembro e que o ano letivo passe a ter apenas dois períodos, mais do que suficientes, diga-se de passagem. Assim, a abertura do ano escolar este ano seja dia 18 de dezembro, por exemplo, com exames no domingo de páscoa. Há que fazer mudanças, certo? :)

9.22.2012

PORQUE EU NÃO SOU MALUCO


O Presidente de Portugal, Cavaco Silva, vai visitar um hospital psiquiátrico e tem uma recepção eufórica por uma comissão de pacientes.
- Viva o Presidente de Portugal! Viva o Presidente de Portugal! - Gritavam eles entusiasmados.

Ao ver um dos elementos do grupo calado, um dos assessores abordou-o e perguntou:

- E você, por que é que não está a gritar “Viva o Presidente de Portugal”?
Responde o homem:
- Porque eu não sou maluco, sou o Médico!


9.20.2012

O DIVÓRCIO

Hoje dei por mim a pensar que melhor do que um bom casamento, só mesmo um bom divórcio.

OS DETALHES

Não sei lidar muito bem com a coisa... essa coisa... a monotonia dos dias que se repetem estupidificantes. Por isso, cada dia, a cada dia me reinvento... Sempre. Ao limite. À exaustão. Não há dia em que não faça ou pense ou invente uma coisa nova. Qualquer coisa. Mesmo que ínfima... Porque o segredo, percebi, está nos detalhes.

9.19.2012

É BLUFF, SR MINISTRO, É BLUFF

Confirma-se. Sao 30 por sala. Todos ali enfiados, a olhar para mim. Às vezes, apetece-me fugir. Mas para onde? Uma colega minha tem 9 turmas mais uma direção de turma. Podem ser 270. Ela arrasta-se por ali... Corpo presente. Nada mais. Não é possível. Eu própria me arrasto após aulas de 90 minutos com 30 seres enfiados numa sala quente. Hoje, 9h da manhã e eu já transpirava em bica... Nos horários, acumulam-se tempos letivos e e tempos não letivos que se transformam em letivos, como que por magia.  Os horários crescem. O tempo para pensar diminui. Carrego 4 manuais de 2kg cada um. Total, 8kg. São muitos quilos. De nada. Ou de muito pouco. E tenho de lhes ensinar ainda coisas detestáveis. Inúteis. Não me sobra tempo para o essencial, Sr. Ministro. Escrever. Falar. Peço quase a Deus que não falem. Que os ouça o menos possível... Porque não fala  um de cada vez. Mas 30. Ouvem-se sempre. Há sempre vozes por ali. Andam todos por ali. Pobres almas... 
Não lhes sei os nomes. Nem quero. Desisti desses modernismos pedagógicos. Cansa-me tanto nome.... tanto Fábio, tanta Sílvia... Quero sossego. Quero ler. Quero silêncio. Quero dormir, Sr. Ministro...
Fez bluff, Sr. Ministro! Nem nós ensinamos nem eles aprendem... É bluff...

9.17.2012

PROFECIAS

Ela percebeu que eram, finalmente, duas pessoas capazes de se alcançarem uma à outra. Mas temiam, ambos, a nostalgia do abismo onde tudo o que eles tinham sido se perderia para sempre. Qual profecia, sabiam que passariam a vida a tentar capturar-se uma o outro... mas sabiam também que quase todas as profecias nada mais são do que meros atos racionais disfarçados com lenços de cigana.

LESS IS MORE O TANAS

O segredo da felicidade, dizem, não está em ter mais mas sim em querer menos. 
Excepto quando se trata de sapatos...

MULHERES QUE CORREM COMO OS LOBOS

WHAT KIND OF BIRD ARE YOU?

ALELUIA!

9.16.2012

O MITO DA MONOGAMIA



O mundo não deve ser reduzido para caber na compreensão... mas a compreensão deve ser aumentada até conseguir conter o mundo. 


(Sir Francis Bacon, 1561-1626)


Já a minha muito querida antropóloga Margaret Mead repetia que a monogamia é a mais complicada e também a mais rara de todas as combinações maritais humanas. Há provas fortíssimas de que os seres humanos não são naturalmente monogâmicos embora possam ser. A verdade é que estudos feitos nesta área mostram que a monogamia não só é rara como difícil e quase anti-natura. E basta darmos uma voltazinha pela História, pela Literatura, pela vida... para o constatar. Já na primeira grande obra da literatura ocidental, Homero fala das consequências do adultério. Na Ilíada, para quem não se recorda ou mesmo para quem não leu, Helena, que era uma rainha grega, casadíssima, manteve uma ligação com Páris, filho do rei Príamo, de Tróia, chegando mesmo a abandonar o seu marido, Menelau, facto que precipitou a Guerra de Tróia. E era uma gaja... 

Mas basta ficarmo-nos pela natureza para percebermos que biologicamente a própria monogamia é rara. Entre quase todos os mamíferos, incluindo a maioria dos primatas, a monogamia simplesmente não existe. É mesmo uma raridade. Das quatro mil espécies de mamíferos existentes, não mais do que algumas dúzias constituem pares estáveis. Parece que os morcegos (coitados, só vêem à noite), as raposas (estúpidas), os saguis (com um instrumento sexual minúsculo, pudera...), mais meia-dúzia de ratos e ratazanas... E se tivermos em conta questões biológicas como o fenómeno da competição dos espermatozóides, esta é ou não uma maneira de dizer "não à monogamia"?
Bem, voltando ao termo monogamia: este designa exclusividade de acasalamento. Mas esta exclusividade não passa de um mito, não é? Ainda que as mulheres sejam mais cuidadosas e prudentes na escolha do parceiro, e os homens significativamente menos selectivos, eles só poderão levar a sua avante se houver um número também significativo de mulheres disponíveis para tal. Certo? Por outro lado, por qualquer razão que desconheço, os homens tendem a exagerar o número de encontros sexuais e as mulheres tendem a diminuir o seu. No fundo, tudo isto se trata de uma grande e perfeita hipocrisia. A espécie humana é propensa a ela, dizendo uma coisa a respeito da monogamia e fazendo outra. 
Por tudo isto, penso que a solução será aceitarmos todos, homens e mulheres, o facto de que a monogamia é um mito e pararmos com hipocrisias desnecessárias. Recordo-me de uma cena do filme "Heartburn" em que a heroína, interpretada por Meryl Streep, conta ao pai, em grande sofrimento, as infidelidades do marido e este limita-se a responder-lhe: "Queres monogamia? Casa com um cisne."
Porém, continuo a acreditar ser possível estar com um parceiro e ser-lhe fiel enquanto a relação existir e for satisfatória a todos os níveis. Mas cada vez mais assisto a situações de infidelidade quer masculina quer feminina embora, ou porque elas não contam ou porque é mesmo assim, eles ainda levem avanço... Como diz um provérbio britânico muito conhecido: "Infants have their infancy. And adults? Adultery."

9.14.2012

DECISÃO

Por isso, decidi, a partir de hoje:

"(...) fazer o possível para não amar demais as pessoas, sobretudo por causa das pessoas. 

Às vezes o amor que se dá pesa, quase como uma responsabilidade na pessoa que o recebe. 

Eu tenho essa tendência geral para exagerar, e resolvi tentar não exigir dos outros senão o mínimo. 

É uma forma de paz..."

Clarice Lispector

9.13.2012

O TESOURO

Recordo todas e tantas as palavras que te escrevi. Escrevia-me para me abrigar da tempestade que se avizinhava. Tive sempre o sentimento de não pertencer completamente a nenhum lugar. E de repente, com uma mistura de reserva e de audácia, a par com algumas concessões, aceitei a realidade que me cerca e me controla. Apetece-me, hoje mais que ontem, ir procurar-te onde estiveres e gritar-te que chegou a hora de vivermos. Porque sinto agora o que nunca senti antes. Quase tenho vontade de ficar num único lugar para sempre... logo eu, cuja ambição é poder viajar livremente pelo mundo.
Talvez eu esteja a perder o controlo sobre a minha existência. Ou talvez eu aceite, a partir de hoje, ser governada pelo destino que te colocou na minha vida para te viver. Por vezes, temos de decidir entre aquilo a que estamos acostumados e aquilo que gostaríamos de ter. E eu sei que te quero perto de mim. E sempre que o sol cruza o céu, eu pergunto porque não estamos juntos. Tenho medo, medo de concretizar o meu sonho e depois não ter mais motivos para continuar viva. Mas as decisões são apenas o começo de alguma coisa. E ao decidir que te quero, mergulhei nesta corrente poderosa que me leva para um lugar desconhecido onde eu jamais pensei poder chegar. Quando se ama, as coisas fazem ainda mais sentido, sabias? Por vezes, temos os tesouros em frente de nós e não percebemos. Sabes porquê? Porque homens e mulheres não acreditam em tesouros.

TRAIÇÃO

Hoje contaram-me histórias de sítios e gentes distantes. E aprendi que os camelos, como alguns homens, são traiçoeiros: andam milhares de quilómetros sem dar qualquer sinal de cansaço. De repente, porém, ajoelham e morrem...

MATRIMÓNIO

As correntes do matrimónio são tão pesadas que são preciso dois para as carregar... às vezes três...

O ORGASMO

E foi então que ela me disse, entre outras coisas:
- Sabes, amiga, nunca tive um orgasmo com ele em tantos anos... ele não me dava tempo...

PALAVRAS DIFÍCEIS



  • Saudade é considerada a sétima palavra do mundo mais difícil de traduzir depois de ilunga (pessoa capaz de perdoar um abuso ou ofensa duas vezes mas nunca uma terceira - Congo); shlimazi (pessoa com má sorte crónica), radioukacz (alguém que trabalhou com telégrafos no lado soviético da cortina de ferro - polaco);. naa (expressão de acordo com alguém - japonês); altahmam (tristeza profunda - países árabes), e tendo atrás de si selathirupavar (tipo de absentismo escolar - Tamil); porchemuchka (pessoa que faz muitas perguntas - russo) e kiloshar (perdedo do albanês). 
    Ora eu discordo em absoluto com os mil linguistas que tomaram esta decisão.:) Nós, portugueses, temos a mania de que mais ningúem sente saudade, como os ingleses acham que nenhum outro povo possui fair play, como alguns africanos se consideram os únicos com morabeza. Falso! Temos todos de tudo. E é tão fácil traduzir saudade, seus ignorantes. É a falta do outro, do seu abraço, dos seus beijos, do seu corpo, do seu sorriso, das suas mãos, do seu cheiro, da sua voz...

    9.11.2012

    MENTIRAS

    - Tu mentes nos teus livros. - disse-me ela um dia com o olhar revoltado.

    OS BORDÉIS DE CABUL

    Em Cabul, as mulheres estão autorizadas a ir às compras mas têm de usar sempre a burka. E só podem sair se acompanhadas do marido ou de um familiar do sexo masculino. A burka, esse símbolo da independência feminina, é obrigatória a partir da  adolescência. E se uma mulher subir um pouco as mangas da burka, pode ser espancada por um taliban... Apenas porque sim. No autocarro, as mulheres ficam separadas dos maridos e não podem sair nas paragens ao mesmo tempo que eles. Quanto aos encontros femininos, tão apreciados entre mulheres, estes só acontecem dento de casa, em cerimónias fúnebres ou casamentos. Sempre situações festivas, como se vê! 
    E agora, questão central e fulcral e essencial: no Afeganistão, as mulheres não podem andar a um passo normal. Porquê? Porque o barulho dos saltos altos implica uma forte punição. Assim, para se precaverem, as mulheres ou andam descalças ou de saltos rasos. Como consequência de toda esta situação, muitas mulheres sofrem de perturbações mentais e algumas tornam-se prostitutas ou pedintes. Outras optam pelo suicídio.
    Agora vem a melhor parte: um relatória da RAWA indicava que, só em Cabul, existiam em 1999, 25 a 30 bordéis frequentados, imaginem por quem? Por quem? Sim, isso mesmo. Pelos próprios talibans. Cada um destes bordéis tera cerca de 3 a 5 mulheres dirigidas por outra mais idosa desginada também por khala kharabati (prostituta).
    E assim vai o mundo...

    UM SÍTIO PARA RENASCER


    Sem dúvida que vou lá voltar. Quando não sei... mas voltarei. Só ou acompanhada, irei. É o sítio mais estranho que eu conheço. E o mais sagrado. O local eleito pelos hindus para morrer. Ali mesmo, nas margens do Rio Ganges, num dos muitos ghats onde uns empilham a madeira para as piras fúnebres  e outros esperam pela morte. Os cadáveres vão chegando em padiolas ou riquexós, embrulhados em panos brancos, amarelos e laranja. Ali aguardam a seu vez para serem cremados.

    Misturei-me com os hindus de madrugada. Queria ver Varanasi do lado do rio ao nascer do sol. Eram 5h da manhã e a margem estava apinhada de hindus no seu banho sagrado.  O barqueiro levou-me, avisando-me para que não me molhasse na poluída água do Ganges. Um micróbio de cólera que em água destilada consegue sobreviver vinte e quatro horas, ali sobrevive apenas três... Tive cuidado mas não exagerei. Coloquei eu própria as minhas velas no rio e o barquinho que me transportava era isso mesmo, um barquinho frágil...
    O ruído de Varanasi pela manhã é quase nulo mas o misticismo a esta hora é enorme. Só quando o sol fura as nuvens, a cidade acorda, revelando os primeiros rituais da manhã. Quase nus, os Hindus banham-se nas águas sagradas e começa então a aventura. As pequenas lojas abrem, vendendo incenso, panos e estátuas... Os cheiros misturam-se com os sons e somos transportados para longe de tudo e de nós mesmos. Mas o caos da Índia dos riquexós, motoretas, buzinas, vacas e gente não é aqui, nestas ruelas que levam às escadarias que descem ao rio.
    Varanasi é um sítio para morrer. Ou renascer...

    P.S. Na foto, Balu, o meu remador no Ganges.

    9.10.2012

    CARTA DE EUGÉNIO LISBOA AO PRIMEIRO MINISTRO DE PORTUGAL

    Exmo. Senhor Primeiro Ministro

    Hesitei muito em dirigir-lhe estas palavras, que mais não dão do que uma pálida ideia da onda de indignação que varre o país, de norte a sul, e de leste a oeste. Além do mais, não é meu costume nem vocação escrever coisas de cariz político, mais me inclinando para o pelouro cultural. Mas há momentos em que, mesmo que não vamos nós ao encontro da política, vem ela, irresistivelmente, ao nosso encontro. E, então, não há que fugir-lhe.

    Para ser inteiramente franco, escrevo-lhe, não tanto por acreditar que vá ter em V. Exa. qualquer efeito – todo o vosso comportamento, neste primeiro ano de governo, traindo, inescrupulosamente, todas as promessas feitas em campanha eleitoral, não convida à esperança numa reviravolta! – mas, antes, para ficar de bem com a minha consciência. Tenho 82 anos e pouco me restará de vida, o que significa que, a mim, já pouco mal poderá infligir V. Exa. e o algum que me inflija será sempre de curta duração. É aquilo a que costumo chamar “as vantagens do túmulo” ou, se preferir, a coragem que dá a proximidade do túmulo. Tanto o que me dê como o que me tire será sempre de curta duração. Não será, pois, de mim que falo, mesmo quando use, na frase, o “odioso eu”, a que aludia Pascal.

    Mas tenho, como disse, 82 anos, e, portanto, uma alongada e bem vivida experiência da velhice – da minha e da dos meus amigos e familiares. A velhice é um pouco – ou é muito – a experiência de uma contínua e ininterrupta perda de poderes. “Desistir é a derradeira tragédia”, disse um escritor pouco conhecido. Desistir é aquilo que vão fazendo, sem cessar, os que envelhecem. Desistir, palavra horrível. Estamos no verão, no momento em que escrevo isto, e acorrem-me as palavras tremendas de um grande poeta inglês do século XX (Eliot): “Um velho, num mês de secura”... A velhice, encarquilhando-se, no meio da desolação e da secura. É para isto que servem os poetas: para encontrarem, em poucas palavras, a medalha eficaz e definitiva para uma situação, uma visão, uma emoção ou uma ideia.

    A velhice, Senhor Primeiro Ministro, é, com as dores que arrasta – as físicas, as emotivas e as morais – um período bem difícil de atravessar. Já alguém a definiu como o departamento dos doentes externos do Purgatório. E uma grande contista da Nova Zelândia, que dava pelo nome de Katherine Mansfield, com a afinada sensibilidade e sabedoria da vida, de que V. Exa. e o seu governo parecem ter défice, observou, num dos contos singulares do seu belíssimo livro intitulado The Garden Party: “O velho Sr. Neave achava-se demasiado velho para a primavera.” Ser velho é também isto: acharmos que a primavera já não é para nós, que não temos direito a ela, que estamos a mais, dentro dela... Já foi nossa, já, de certo modo, nos definiu. Hoje, não. Hoje, sentimos que já não interessamos, que, até, incomodamos. 

    Todo o discurso político de V. Exas., os do governo, todas as vossas decisões apontam na mesma direcção: mandar-nos para o cimo da montanha, embrulhados em metade de uma velha manta, à espera de que o urso lendário (ou o frio) venha tomar conta de nós. Cortam-nos tudo, o conforto, o direito de nos sentirmos, não digo amados (seria muito), mas, de algum modo, utilizáveis: sempre temos umas pitadas de sabedoria caseira a propiciar aos mais estouvados e impulsivos da nova casta que nos assola. Mas não. Pessoas, como eu, estiveram, até depois dos 65 anos, sem gastar um tostão ao Estado, com a sua saúde ou com a falta dela. Sempre, no entanto, descontando uma fatia pesada do seu salário, para uma ADSE, que talvez nos fosse útil, num período de necessidade, que se foi desejando longínquo. Chegado, já sobre o tarde, o momento de alguma necessidade, tudo nos é retirado, sem uma atenção, pequena que fosse, ao contrato anteriormente firmado. É quando mais necessitamos, para lutar contra a doença, contra a dor e contra o isolamento gradativamente crescente, que nos constituímos em alvo favorito do tiroteio fiscal: subsídios (que não passavam de uma forma de disfarçar a incompetência salarial), comparticipações nos custos da saúde, actualizações salariais – tudo pela borda fora. Incluindo, também, esse papel embaraçoso que é a Constituição, particularmente odiada por estes novos fundibulários. O que é preciso é salvar os ricos, os bancos, que andaram a brincar à Dona Branca com o nosso dinheiro e as empresas de tubarões, que enriquecem sem arriscar um cabelo, em simbiose sinistra com um Estado que dá o que não é dele e paga o que diz não ter, para que eles enriqueçam mais, passando a fruir o que também não é deles, porque até é nosso.

    Já alguém, aludindo à mesma falta de sensibilidade de que V. Exa. dá provas, em relação à velhice e aos seus poderes decrescentes e mal apoiados, sugeriu, com humor ferino, que se atirassem os velhos e os reformados para asilos desguarnecidos , situados, de preferência, em andares altos de prédios muito altos: de um 14º andar, explicava, a desolação que se comtempla até passa por paisagem. V. Exa. e os do seu governo exibem uma sensibilidade muito, mas mesmo muito, neste gosto. V. Exas. transformam a velhice num crime punível pela medida grande. As políticas radicais de V. Exa, e do seu robôtico Ministro das Finanças - sim, porque a Troika informou que as políticas são vossas e não deles... – têm levado a isto: a uma total anestesia das antenas sociais ou simplesmente humanas, que caracterizam aqueles grandes políticos e estadistas que a História não confina a míseras notas de pé de página.

    Falei da velhice porque é o pelouro que, de momento, tenho mais à mão. Mas o sofrimento devastador, que o fundamentalismo ideológico de V. Exa. está desencadear pelo país fora, afecta muito mais do que a fatia dos velhos e reformados. Jovens sem emprego e sem futuro à vista, homens e mulheres de todas as idades e de todos os caminhos da vida – tudo é queimado no altar ideológico onde arde a chama de um dogma cego à fria realidade dos factos e dos resultados. Dizia Joan Ruddock não acreditar que radicalismo e bom senso fossem incompatíveis. V. Exa. e o seu governo provam que o são: não há forma de conviverem pacificamente. Nisto, estou muito de acordo com a sensatez do antigo ministro conservador inglês, Francis Pym, que teve a ousadia de avisar a Primeira Ministra Margaret Thatcher (uma expoente do extremismo neoliberal), nestes termos: “Extremismo e conservantismo são termos contraditórios”. Pym pagou, é claro, a factura: se a memória me não engana, foi o primeiro membro do primeiro governo de Thatcher a ser despedido, sem apelo nem agravo. A “conservadora” Margaret Thatcher – como o “conservador” Passos Coelho – quis misturar água com azeite, isto é, conservantismo e extremismo. Claro que não dá. 

    Alguém observava que os americanos ficavam muito admirados quando se sabiam odiados. É possível que, no governo e no partido a que V. Exa. preside, a maior parte dos seus constituintes não se aperceba bem (ou, apercebendo-se, não compreenda), de que lavra, no país, um grande incêndio de ressentimento e ódio. Darei a V. Exa. – e com isto termino – uma pista para um bom entendimento do que se está a passar. Atribuíram-se ao Papa Gregório VII estas palavras: ”Eu amei a justiça e odiei a iniquidade: por isso, morro no exílio.” Uma grande parte da população portuguesa, hoje, sente-se exilada no seu próprio país, pelo delito de pedir mais justiça e mais equidade. Tanto uma como outra se fazem, cada dia, mais invisíveis. Há nisto, é claro, um perigo.

    De V. Exa., atentamente,

    Eugénio Lisboa

    Ex-Director da Total, em MoçambiqueEx
    Director da SONAP MOC 
    Ex-Administrador da SONAPMOC e da SONAREP 
    Ex-Conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal em Londres
    Prof. Catedrático Especial de Estudos Portugueses (Univ. Nottingham) 
    Ex-Presidente da Comissão Nacional da UNESCO 
    Prof. Catedrático Visitante da Univ. de Aveiro
    Doutor Honoris Causa pela Univ. de Nottingham
    Doutor Honoris Causa pela Universidade de Aveiro 
    Medalha de Mérito Cultural (Câmara de Cascais)