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6.22.2012

ESTAMOS TODOS A JOGAR O MESMO JOGO

Assisti há dias a uma palestra sobre o crescimento pessoal e a expansão da consciência... Entrei receosa mas sai rendida às ideias apresentadas. Talvez pela qualidade dos oradores, um mestre de Reiki e o outro instrutor de yoga ou talvez pelas energias que circulavam na sala ou as duas coisas não sei bem... Basicamente, a palestra pretendeu passar ensinamentos dos Kahunas, curadores xamânicos e para tal, começou pela Física Quântica e sobre os paralelos que se revelam idênticos em culturas milenares... Quem somos nós, afinal? Ouviram-se relatos de 14 cientistas sobre o que é a energia, sobre o estudo do movimento do átomo, sobre as toerias de Heisenberg... O mundo é mesmo o campo de todas as possibilidades e o funcionamento dos átomos está além do tempo...
Assim, seremos responsáveis pela nossa própria realidade? E as coincidências serão meros cruzamentos de energia? 
Chegou-se então ao ponto de refletir sobre a forma como lidamos com os obstáculos. Interessei-me... Abolir os pensamentos destrutivos, todos eles... - disseram-me. E usar as 4 leis da energia dos índios Kahunas:
1ª- IKE - criamos a nossa realidade através de crenças, desejos, atitudes e pensamentos persistentes;
2ª - MAKIA - recebemos aquilo em que nos concentramos; os pensamentos ou sentimentos que nutrimos consicente ou inconcientemente moldam a nossa realidade; conselho: não pensar no que ficou para trás, seja em forma de trabalho, pessoa, oportunidade... Basicamente esquecer a última coca-cola gelada do deserto...
3ª - KALA - Somos ilimitados; tudo é formado de átomos que podem ser moldados pelo nosso pensamento.
4ª - MANAWA - o nosso momento de poder é o AGORA e podemos, se quisermos, mudar crenças, pensamentos e padrões de comportamento que nos aprisionam e impedem o nosso crescimento.

Sai dali a pensar que, vestida com outras roupagens, aquilo que me foi apresentado foi a teoria de John Grinder que há tanto tempo usamos em coaching e em formação sobre Programação Neurolinguística. Perguntas básicas: O que queremos da vida? Qual o nosso projeto? O que fazer para o alcançar?
Em suma, temos o poder dentro de nós. Só precisamos de o resgatar! Como eu costumo dizer aos meus formandos, todos temos experiências de "pico" e experiências de "flow" mas estamos, TODOS, a jogar o mesmo jogo.: chama-se VIDA...  

6.21.2012

SOU FELIZ SÓ POR PREGUIÇA

No final de um curso, disseram-me: 
-Vê-se mesmo que a formadora é uma mulher feliz!
Engoli em seco... estremeci... voltei a engolir em seco e, recomposta, respondi mais ou menos isto: Acho que sou feliz. Que sempre fui... A felicidade é uma vocação... Todos somos chamados a ser felizes... 
Hoje, ainda penso nesse dia. Sim, sou feliz... Sou feliz só por preguiça... Porque... porque... poderia não ser. Teria, sem me esforçar, algumas - fortes - razões para ser infeliz. Mas recuso-as. Todas. Uma a uma... Luto contra elas dia a dia. 
Encontrei-me... Levei tempo até chegar aqui... Três décadas, no mínimo, à deriva sem saber o caminho... Projeto de vida? Tenho o possível. Talvez ainda não o sonhado... 
Sobretudo, aprendi cedo a saber esperar. Foi o mais difícil de aprender... Apostar naquilo que tarda em chegar. E que não sei se chegará...
Tenho aguardado, com a calma possível, por um projeto afetivo que complemente a minha vida... sem o qual vivo bem mas com o qual sei que viverei melhor.
Entretanto, nesta caminhada a que chamam vida, tenho seguido o princípio de Píndaro e não me tenho dado mal... 
Não resulta querermos ser o que não somos!

LÁ ESTAVA ELE...

Nove da manhã. Matemática. Entraram. Por ordem. Sentaram-se. Sala cheia. Putos. A rondar os quinze anos. Jeans. T-shirts. Ténis Nike. Mochilas. Calculadoras. Canetas...
Contidos. Aguardaram pelo enunciado. Fiz a distribuição. Do exame. Das folhas de rascunho. Conferi as identidades. Assinei as filhas. Ia já sentar-me quando... 
Lá estava ele... estrategicamente colocado, após te sido ajeitado com cuidado em cima da calculadora... Olhei de novo. Pensei ter visto mal. Era. Era mesmo... uma figura de cristo em madeira castanha...
Sentei-me e fiquei a pensar nesta improvável equação...

O QUE FAZER COM A LÍNGUA


A propósito da Declaração de Amor à Língua Portuguesa que por aí anda a circular, pus-me a pensar no assunto, concluindo que sim, o ensino do Português ou da Língua Portuguesa exige ser repensado; sim, o acordo ou desacordo é uma inutilidade mas não vem daí mal maior ao nosso mundo; sim, as aulas podem ser uma grande chatice para o professor que tem de ensinar Padre Antonio Vieira às oito da matina; sim, a literatura portuguesa tem muito mais e melhor do que Os Lusíadas, desculpem lá... A idiotice a que a situação do ensino da nossa língua chegou é tão grande, que hoje nas indicações para exame nacional numa escola portuguesa, lia-se: Os alunos devem utilizar a Língua Portuguesa para responder às questões da Prova de Exame"...
Pois, não fossem eles, atrevidos, escrever em mandarim... 



6.20.2012

FILOSOFIA CÓDIGO 714

Filosofar às nove da matina após uma noite má dormida não indicia boa coisa  mas hoje foi assim  mesmo e eu tinha de me manter acordada em mais uma vigilância...
Tudo começa com Spinoza e a sua correlação entre o homem e a pedra no que à consciência dos seus desejos ou à ignorância das causas que os determina diz respeito. Somos nós que nos mantemos em movimento ou, qual pedra, só descemos colina abaixo empurrados pelo vento? Como a pedra, pensamos ser nós os impulsionadores da nossa própria ação acreditando sermos livres: "Assim, (reza o dito texto) é esta liberdade humana que todos os homens se vangloriam e que consiste somente nisto, que os homens são conscientes dos seus desejos e ignorantes das causas que os determinam."
SERÁ?
Adiante...
Kant surge no grupo seguinte com a MORAL... e o texto, de grande utilidade nacional, deveria servir de cartilha aos políticos e ser a oração matinal na Assembleia da República... "Age de modo que a tua regra de conduta possa ser adotada como lei por todos os seres racionais". Tal como deveria ser a teoria da Justiça de Rawls (John Rawls) leitura obrigatória em todas as escolas e empresas, igrejas e hospitais... Mais do que nunca, parece-me urgente voltar aos princípios de conduta que se vão perdendo pelo caminho...
Seguiu-se Platão. Sobre o mau uso da retórica. Que grande atualidade de temas! "Quem se quer orador não tem necessidade de conhecer o que realmente é justo, mas o que aparente sê-lo à multidão que deve julgar: não o  que na realidade é bom e belo, mas quanto dá dessa aparência, já que daí deriva a persuasão, e não da verdade!" Perigoso! E real! O eterno jogo ser/parecer mesmo à nossa frente, a saltar da vida para a folha de exame... Um exame sobre normas de conduta, valores (ou a falta deles), verdades e menturas, mau uso da palavra, falácias de todo o tipo... Que atualidade! E tudo termina em grande quando se pede aos alunos para testarem a validade do seguinte argumento:
Todos os pedantes são enfadonhos.
Alguns intelectuais não são enfadonhos.
Logo, alguns intelectuais não são pedantes...
Proponho que se troque "pedante" por "político" e "enfadonho" por "corrupto" a ver o que dá...
EU, PROF FARTA DO SISTEMA, ME CONFESSO!

6.19.2012

FAMÍLIA

"Às vezes penso que, possivelmente, não precisamos de pai e mãe. A mim a família só me atrapalhou. Tive que começar tudo pela outra ponta."

António Alçada Baptista, O Tecido do Outono

A HIPNOSE DA EDUCAÇÃO

"À maneira que passaram os anos dei-me conta que toda a educação é uma forma de hipnose, de lavagem ao cérebro, de endoutrinamento donde é difícil sair com os sentidos intactos!"

in António Alçada Baptista, O Tecido do Outono

NÃO SEI VIVER COM ISTO

Não sei viver com isto...quero tudo e não tenho nada. E hoje não tive nada e uma vida não chega para viver tudo o que quero viver contigo. E depois há os dias como o de hoje em que desapareces e eu perco o discernimento. Atrapalhas-me a vida com o teu silêncio. Caso contrário viveria os meus dias como se não tivessem fim. Parece que é de um momento para o outro e de repente que a gente leva um golpe e hoje foi o dia... feito de silêncios perturbantes porque me cheguei a ti e não estavas lá.
E os dias correm e desaparecem... e a este vazio que fica quando o dia chega ao fim, que lhe faço?

EXAME DE MATEMÁTICA B

Só almas mesmo muito elevadas, a roçar o estado Zen é que aguentam... e mesmo essas, tremem perante uma vigilãncia de exame. Não se aguenta! Entras na escola às oito da matina para às oito e meia te darem um envelope selado com as provas... Se te atrasas e chegas ao Secretariado de Exames às oito e trinta e dois ou trinta e cinco, levas com uma falta a encarnado só justificável com um atestado médico... o que signfica que vais perder  a tarde no agradável Centro de Saúde de tua zona a pedinchar o dito atestado à tua médica de família, isto se ela não tiver ido já de férias... Porque se a gaja foi de férias, tás literalmente lixado/a... Caso o dia seja de sorte e a gaja esteja por lá e bem disposta, vai mentir com os dentes todos, pondo no papelinho que tu estiveste doente nesse dia quando o que aconteceu foi que te atrasaste dois ou três minutos embora o exame propriamente dito só comece às nove horas e  tu tenhas chegado às oito e trinta e cinco e os alunos só entrem na sala às oito e quarenta e cinco e o toque de cortar o envelope com a tesoura só apite às nove.
Se não entenderam façam de conta ou eu explico de novo!

Ultrapassada esta primeira fase, estás na sala, os alunos entram, são distribuídos pela ordem de pauta, preenchem o cabeçalho da folha de exame, conferes a sua identidade, cortas o dito envelope, distribuis os enunciados e sentas-te. Na rifa, hoje saiu-me Matemática B, 12º Ano, Código 335, Duração 150 minutos.

150 MINUTOS? Não queres acreditar que são tantos minutos... nunca imaginas o tempo que demoram cento e cinquenta minutos a passar... uma verdadeira epopeia da eternidade. O que significa que até às onze e meia, não existes! A única coisa que podes fazer é respirar! É então que tentas distrair-te a tentar decifrar o enunciado da prova que exame que para uma prof de Português surge em forma de hieróglifo: o comprimento de um arco de circunferência mais a área de figuras planas com volumes e progressões e sucessões e sistemas de restrições e círculos de valores de variáveis e espaços percorridos e taxas de variações de função, trapézios isósceles e os quadriláteros obtidos.

Durante duas horas e meia pedem-te que não tujas nem mujas, como se o mundo acabasse ali. Mas não acaba... Sai dali convencida de que a taxa média de variação da função N pedida(sendo, neste caso, função N o tempo disponibilizado aos alunos para realização do dito exame e aos profs para suportarem a hercúlea missão) não é nem positiva nem negativa: é sempre, sempre excessiva!

6.17.2012

SÍNDROME DE ESTOCOLMO

São mais, muitos e muitas mais, aqueles e aquelas que dela sofrem Tenho andado mais atenta ao fenómeno desde que me apercebi de que isto se passava com pessoas próximas e de quem eu nunca esperaria algo semelhante. Claro que para isto acontecer, o estado psicológico da vítima tem de ser particular pois uma pessoa que se identifica com o seu agressor, de certeza que não estará muito bem da tola.

A designação deste fenómeno surge em referência ao famoso assalto de Norrmalmstorg do Kreditbanken em Norrmalmstorg, Estocolmo que durou de 23 de agosto a 28 de agosto de 1973 durante o qual as vítimas ganharam simpatia pelos seus captores, defendendo-os mesmo perante a justiça. E parece que a coisa se desenrola assim: primeiro, as vítimas começam por identificar-se emocionalmente com os sequestradores, a princípio como mecanismo de defesa, por medo de retaliação e/ou violência e pequenos gestos gentis por parte dos captores são frequentemente amplificados... Em segundo lugar, é importante observar que o processo da síndrome ocorre sem que a vítima tenha consciência disso. A mente fabrica uma estratégia ilusória para se proteger...

Mas de todas as situações em que a síndrome de Estocolmo pode acontecer (sequestro, cenários de guerra, sobreviventes de campos de concentração, pessoas submetidas a prisão domiciliária por familiares, vítimas de abusos pessoais, como mulheres e crianças), aquela que mais me tem intrigado é o caso de violência doméstica e familiar em que a mulher é agredida pelo marido e continua a amá-lo e a defendê-lo junto da família e dos amigos como se as agressões fossem normais. Em bom português: ela leva uma tareia do camandro, aparece de olhos negros, nós sabemos o que aconteceu mas ela diz que tropeçou e que caiu.

A melhor maneira de tratarmos esta síndrome de Estocolmo surge cedo, logo na escola primária. E pode, a meu ver, muito bem ser identificada na literatura infantil, no clássico conto francês, escrito por Marie le Prince de Beaumont, "A Bela e o Monstro" que conta a história de uma menina muito bonita e inteligente que é vítima de cárcere privado por um MONSTRO, e por fim desenvolve um relacionamento afetivo e casa-se com ele.
Atenção, MUITO IMPORTANTE: este conto tem de ser trabalhado como deve ser ou as crianças ainda ficam a adorar o Monstro e depois correm o risco de vir a casar com ele...

6.16.2012

ZEN AND THE ART OF HOUSEKEEPING


“I try to think of housekeeping as a short mental vacation — let my mind freewheel like I do on a walk or a swim.  
I sometimes come up with solutions to problems I didn’t even know I had.”  

Housekeeping is repetitive, monotonous and makes ME feel miserable. But can be very conducive to pondering the questions of life while, I can assure you. I took the day out for cleaning and putting things into order and as I go about my house, I get overwhelmed at everything that needs order... So, I stop a bit and come to the laptop or to the window or to the terrace or to another cigarette... The fact is that I realized I had clothes waiting for ironing since last summer... and that's a... real terrible fact! 

Staying home in a mission like this is also a very powerful way to send away some trash... and any piece that's broken, ugly or irritating goes straight to the trash bag... This saturday mission is also strong to lead me to the chocolate boxes I have been hiding from myself but, who cares? Today I do not care too much... like Scarlett O’Hara, will think, “Tomorrow is another day.”




HISTÓRIA

Esta é uma simples história de um incêndio emocional vivido entre duas cidades com uma terceira a fazer de amante.

AS PALAVRAS

Hoje acordei com palavras...a pensar em palavras... nas palavras...
Sei o crime da palavra, da fatalidade do sim e do não... Sei que os atos valem mais do que as palavras e sei que elas nos condicionam o pensamento. Sei que lutar com palavras é a luta mais vã, sei de palavras com poucas ideias, palavras vazias e frases-feitas... e sei mesmo que, em última instância, quando estamos irremediavelmente sós, as palavras não servem para nada.

Mas eu preciso de palavras como do ar... Sim, há palavras que nos beijam e há as outras, as palavras que nos matam (melhor, as que me matam...) como se fossem punhais.

Falávamos há dias entre amigas e algumas gargalhadas sobre o tema e recordei de imediato a minha profunda sensibilidade às palavras quando, após falar cerca de quarenta e cinco minutos com um meio conhecido, amigo de uma amiga, ele encerrou o diálogo com a frase: - Boa noite, vou nanar! Ora, eu que nem com crianças aprecio particularmente a infantilização discursiva, arrepiei-me e, sim, encerrei ali e para sempre aquele processo dialogante que o dito sujeito inutilmente tentou prosseguir nos dias seguintes. O mesmo se passou tempos mais tarde com o indivíduo sensato e sensível, de boas famílias e intenções que, sentindo-se jà à vontade no discurso, desejou-me boas noites por sms acrescentando: 
- Boa noite! Banhoca tomada, leitinho bebido...
Pum catrapum pum pum... Foi o fim do que não tinha começado. Aquela frase entoou horas a fio pela minha cabeça e, os diminutivos usados, ainda hoje fazem efeito... 

É claro que temendo o elevado exagero do meu espírito crítico, pedi imediata ajuda às experts na matéria. Duas amigas. Uma, como eu, referiu apenas, sorriso largo e olhar manhoso: - Compreendo! A outra, mais benevolente, usou da sua capacidade engenhoso-discursiva para tentar explicar que, em determinados contextos, um homem maduro pode dizer que tomou banhoca e bebeu leitinho... mas não nos convenceu...

Pronto! Chego assim ao cerne da questão... Será que o amor ou a falta dele nos infantiliza? Será preciso dizer ao outro Gosto de Tu? E aqui confesso-me assustada com a minha galopante perda de sentido crítico... Julgo até ter respondido com um também Gosto de Tu, só talvez justificável porque, de facto, indubitável e inesperadamente, também gosto de ti!

6.15.2012

O TEMPO DA TRAVESSIA

"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos. " 

Fernando Pessoa

6.14.2012

MÉXICO

- Uma vez, quando era pequena, o meu pai levou-me ao México.
- Mas tu nunca foste ao México...
- Não, não fui. É verdade... tens razão... Mas não é preciso ir aos sítios para se estar lá. Nem é preciso ter pai.

DIAS QUE CORREM DEPRESSA

Há dias que correm muito depressa... E quando isso acontece, podemos fugir à frente do tempo mas ele persegue-nos e já não nos podemos esconder. Há quem viva além da conta... há quem se permita excessos sem precaução...há mesmo quem prefira sentar-se numa cadeira com tempo e alma e ficar ali, à espera que o turbilhão passe. Se passar... 
E há quem precise de olhar para trás para ver de onde vem porque simplesmente não sabe para onde vai... 
Por isso, te digo: há alturas na vida em que temos de voar...

O DRAMA DE PORTUGAL

Já todos os homens de letras o escreveram, de Garrett,  Eça,  Antero, a Pessoa e a Saramago... Trazemos desde o início uma fragilidade endémica que não conseguimos superar. Por momentos, parece que vamos conseguir... construímos velas e lançamo-nos ao mar... E até navegamos... Mas o barco acaba sempre por parar. É este o drama... o nosso drama, o drama do nosso atraso e da nossa dependência. Somos demasiado passivos face aos tempos... Precisamos de ideias novas e de alternativas, precisamos de pensar... Não precisava vir o Roosevelt dizer que a democracia se funda em coisas simples.  Nós sabemos que são as coisas básicas e simples que definem um povo e lhe dão a sua identidade. Essas duas coisas fundamentais e básicas, o trabalho e a educação, perderam-se em Portugal. E sem eles, perdemos o caminho...
Não nos iludamos, de facto. Ou nos salvamos ou ninguém nos virá salvar... Nem o D. Sebastião...

DE DUBLIN A GALWAY

Hoje de manhã a caminho do trabalho,  ouvi que a Aung San Suu Kyi vem à Europa após mais de vinte anos de ausência e que, no seu périplo, vai encontrar-se com Bono Vox em Dublin. Recordei de imediato a cidade e o país...
Decidi passar o meu último aniversário na Irlanda. Estava de férias e sair de Lisboa para um outro local pareceu-me interessante. Num ápice, procurei e mal dei por mim já tinha colocado o código do  cartão de crédito. Há impulsos a que não se consegue resistir...

Cheguei ao aeroporto de Dublin por volta das sete horas da tarde. Pequeno, confortável e suficientemente acolhedor. Apanhei o autocarro da Airlink por 6 euros para o centro da cidade, mais propriamente para O'Connell Street, de onde seria fácil encontrar outro transporte para o meu hotel. Saí na O'Connell, uma das mais largas avenidas da Europa (desenhada por Luke Gardiner em 1740) e apanhei o tal autocarro conduzido por uma senhora que andou literalmente comigo à procura do hotel. Insólito, sim! Mas aconteceu. Ela ia conduzindo o autocarro devagarinho até o encontrar e garantir que me deixava à porta. E era um autocarro público! Começou aqui a minha simpatia pelos irlandeses. Desde a faculdade que me recordava das anedotas dos ingleses para os irlandeses, algo semelhante ao que acontece com as anedotas sobre alentejanos.

Povo afável e festivo, os irlandeses celebram a vida a todo o momento. Andei por Dublin como se fosse uma pequena cidade do interior de Portugal, parando obrigatoriamente todos os fins de tarde no Temple Bar para uma pint de Guineess ou duas, a aquecer a alma que em Dublin faz frio em fevereiro. O Temple Bar é a catedral de Dublin, onde tudo acontece e ponto de encontro de locais e estrangeiros... mas há centenas de pubs em Dublin, basta escolher.
Dublin é uma cidade para se percorrer a pé. Rica em edifícios de estilos georgiano muito bem conservados, visitar as suas catedrais é obrigatório (a St. Patrick Cathedral  é a maior igreja protestante da Irlanda e considerada a catedral do povo e a Christ Church Cathedral foi a primeira igreja de Dublin fundada em 1038) mas acabamos quase sempre por acabar no Trinity College, cuja livraria tem mais de três milhões de livros... ou para dar de frente com a estátua de Oscar Wilde ou de James Joyce. Eu que gosto de cafés, tento explorá-los nas cidades por onde passo e em Dublin, o Bewleys em Grafton Streer é um sítio a não perder, onde podemos observar as senhoras irlandesas a beber o seu chá. Claro que quem visita Dublin ou qualquer outra cidade daquelas paragens não resiste à oferta de livros fantásticos em segunda mão a 1 euro ou 50 cêntimos nas muitas lojas Charity que se encontram a cada rua. Os irlandeses são verdadeiramente um povo de escritores e de leitores... Dublin, cidade calma e acolhedora, onde a literatura paira no ar assim como o espírito de sobrevivência dos muitos milhares que tiveram de emigrar aquando da Grande Fome (The Great Famine foi um período de fome, doenças e emigração demassas que dizimou a irlanda entre 1845 e 1852).

Mas Dublin não é a Irlanda. E o comboio é uma das melhores formas de conhecer o país. Da estação de Heuston, a viagem demore cerca de 3 horas e custa cerca de 45 euros.  Optei por Galway em vez de Cork. Qualquer dos sítios serviria para me deixar sentir o outro lado... Mas Galway, uma pequena vila costeira e considerada por muitos um dos locais mais descontraídos do oeste da Europa Ocidental, tem um estilo de vida sereno e boémio, indo todas as suas ruelas dar ao mar. Conhecida com o terra das tribos durante a Idade Média (por ter sido governada por 14 tribos bárbaras), realiza uma feira semanal onde a música celta é soberana e os fish and chips também.

Regressei de Dublin no dia do meu aniversário com a frase do Bernard Shaw em mente:
 "Ireland, sir, for good or evil, is like no other place under heaven, and no man can touch its sod or breathe its air without becoming better or worse."
- George Bernard Shaw

AT THE END EVERYTHING WILL BE OK

"At the end everything will be ok!
And it it's not ok it's because it's not the end!"

in The Best Exotic Marigold Hotel

6.12.2012

QUANDO...


Pediu-lhe para definir o que sentia e ela respondeu-lhe:

" - Sabes, quando, de repente, tudo aquilo a que estavas habituado, deixa de fazer sentido? Quando te apetece parar os relógios e ficar abraçado para sempre? Quando sentes o teu mundo desabar porque, de súbito, esse deixou de ser o teu mundo? E quando olhas em redor e a pessoa que tu amas não está e não percebes porquê? Quando te sentes incompleto, estranho, inseguro, carente... porque simplesmente te apavora a ideia de não seres amado desta forma louca e brutal? Quando qualquer sinal é suficiente para te fazer vibrar outra vez? Fazes ideia do que é amar de novo, quando já nem te lembravas como era? E querer tudo do outro, sem concessões? Sabes o que é não querer restos nem migalhas mas querer dar e receber tudo, tudo, tudo...? 




Achas que algum dia vais entender o que é sentir tudo isto ao mesmo tempo?"

EXCÊNTRICO


meu pai era um homem alto, magro, de olhos azuis cristalinos e rosto perfeito. Era um homem estranhamente elegante que me habituei a ver à distância nos seus espaços de eleição: a sua secretária, onde lia e escrevia avidamente, e o canto do quintal, sob aquela imensa amendoeira que nunca, que me lembre, deu algum fruto.

Era um homem excêntrico, de uma excentricidade que incomodava. Na forma de agir, de falar, de viver. 

Os seus hábitos escandalizavam. As suas palavras, sempre novas, deixavam-me inquieta. Era demasiado diferente dos demais... 

Mas as suas leituras, os seus livros, os seus poemas permanecem em mim. 

Sinto saudades de o ver. Acordo todas as noites a olhar para os seus olhos azuis a devolverem-me um sorriso.

Não o vi morrer. Morreu sozinho como morrem todos os HOMENS. Só espero que tenha sido devagarinho, como se estivesse a adormecer.

CICATRIZES


Não tentes enterrar a dor... Porque ela estender-se-á pela terra, sob os teus pés; infiltrar-se-á na água que tenhas de beber e envenenar-te-é o sangue. 

As feridas fecham-se, mas ficam sempre cicatrizes mais ou menos visíveis que voltarão a incomodar quando mudar o tempo, lembrando-te na pela a sua existência e, com ela, o golpe que as originou. 

E a recordação do golpe afectará as decisões futuras, criará medos inúteis e tristezas vis, e crescerás como uma criatura apagada e cobarde. 

Para quê tentar fugir e deixar para trás a cidade onde caíste? Pela vâ esperança de que, noutro local, num clima mais benigno, já não te doerão as cicatrizes e beberás uma água mais limpa? 

Em teu redor erguer-se-ão as mesmas ruínas da tua vida porque para onde quer que vás, levarás a cidade contigo.

Não há terra nova nem mar novo; a vida que não aproveitaste ficará por aproveitar em qualquer parte do Mundo.

A HISTÓRIA DO DESEJO

Um homem estava muito doente e experimentou todos os tipos de terapia, mas nada o ajudava. Então foi a um hipnotizador e este deu-lhe um mantra para ele repetir continuamente: 

"Eu não estou doente." Durante pelo menos quinze minutos de manhã e quinze minutos à noite. "Eu não estou doente, eu sou saudável." E durante todo o dia, sempre que se lembrasse, deveria repeti-lo. Ao fim de alguns dias ele começou a melhorar. Dentro de algumas semanas 
ele estava completamente bem de saúde.


Então o homem contou à sua mulher:
 - Isto foi um milagre! Achas que devo ir a este hipnotizador pedir outro milagre? É que ultimamente não tenho sentido desejo sexual e a nossa relação sexual está quase estagnada. Já não há desejo.
A mulher ficou contente. Ela disse:
 - Vai, porque começava a sentir-me muito frustrada.
O homem foi ao hipnotizador. Quando regressou, a mulher perguntou-lhe:
 - Que mantra, que sugestão é que ele te deu agora?

O homem não lhe contou mas ao fim de algumas semanas começou a recuperar o desejo sexual. Ele começou a sentir desejo novamente. Então a mulher ficou muito intrigada. Ela perguntava-lhe constantemente, mas o homem ria-se e não dizia nada. Então um dia, enquanto ele estava na casa de banho de manhã a fazer a sua meditação, ela conseguiu ouvir o que ele dizia: 

"Ela não é a minha mulher. Ela não é a minha mulher. Ela não é a minha mulher." 

COMO A AREIA DO TEMPO


As memórias são intermitentes, às vezes fugidias mesmo... Hoje, porém, recordo cada instante, cada momento, cada pormenor de um tempo em que fui feliz. E a loucura, aquela que anda de mãos dadas com a poesia, apodera-se um pouco de mim. As pessoas equilibradas nunca entenderão a poesia, nunca entenderão o vazio da perda.

Dei tudo o que tinha para dar. Mais não dei porque não tinha. Fui, pouco a pouco, esvaziando-me e hoje cheguei ao limite da embriaguez de nada. E quando ficamos sozinhos, tendemos a caminhar para as luzes que se avistam à distância. Eu nada vejo. Mas penso. Recordo tudo através dos seus olhos, do seu corpo... e sinto tudo a escoar-se por entre os meus dedos, como "a areia do tempo".

ESSE DIA CHEGOU


Tenho chegado sempre a um ponto do caminho com a sensação de que poderia ter continuado. Até onde não sei. Mas nunca continuei. 

O que sei é que o percurso foi repleto de emoções. Mas eu não sabia continuar. 

Senti-me sempre esvaziada dessa força que gera as relações tradicionais. Não possui essa capacidade. Sou porventura demasiado cobarde. Ou demasiado lúcida. Já não sei.

Por isso, fiquei sempre a meio do caminho. 

E fui sempre dizendo entre dentes: talvez um dia eu consiga...

Julgo que esse dia chegou! 

NISHA SHARMA


Tem apenas 22 anos e tornou-se a minha mais recente heroína. A poucas horas de se casar e, estando os convites para a boda há muito na mão dos convidados, Nisha decidiu cancelar o casamento. Tudo por causa do dote, um negócio oficialmente ilegal mas que continua a ser praticado em todos os estratos da sociedade indiana.Indiferente ao facto de provocar uma verdadeira revolução, quando soube que a família do noivo pediu, no próprio dia do casamento, a quantia de um milhão de rupias como dote, a noiva chamou a polícia e o noivo foi detido. 


Nisha transformou-se assim num ícone da Índia progressista e já há várias associações feministas a prestarem homenagem ao seu acto de coragem.

Gosto do país. Gosto dos cheiros. Gosto das gentes. Gosto das cores. Gosto da Índia em geral. Fui e vou voltar muito brevemente. Não gosto de ver as mulheres serem vendidas como gado, cada uma delas com o seu diferente preço.

COMO MANTER UM CERTO NÍVEL DE INSANIDADE



Manter a insanidade, NOS DIAS QUE CORREM, parece ser essencial à saúde mental. 
Assim, aqui vão algumas ideias:




1. No seu horário de almoço, sente-se no seu carro estacionado num local de passagem, e aponte um secador de cabelo aos carros que por si passem. Observe se eles diminuem a velocidade.

2. Sempre que alguém lhe pedir alguma coisa, pergunte se quer batatas fritas a acompanhar.


3. Sempre que alguém lhe disser algo, seja o que for, responda: "Isso é o que tu pensas!"


4. Termine todas as suas frases com: "de acordo com a profecia".


5. Ajuste o brilho do seu monitor ao ponto de iluminar toda a sua área de trabalho.


6. Não use pontuações.


7. Sempre que possível, pule em vez de andar.


8. Pergunte às pessoas de que sexo são. Ria histericamente depois delas responderem.


9. Cante na ópera.


10. Se for a um recital de poesia, pergunte por que razão os poemas não rimam.


11.Comece a imitar alguém que encontra diariamente na sua forma de vestir. Pode ser o seu chefe.


12. Quando levantar dinheiro no multibanco, grite.


13. Ponha um mosquiteiro em redor da sua secretária e um "CD" com sons da floresta a tocar.


14. Se tiver filhos, à hora do jantar diga: "Devido à situação económica, teremos de mandar um de vocês embora."


15. Sempre que lhe apitarem no trânsito sorria...

A MINHA ALMA



Não sei se alguma vez conheceste a minha alma. Mas sei que há muito tempo que não conversas com ela, não sabes o quanto ela mudou, o quanto ela está a pedir desesperadamente para 
que a oiças.

Ou já não. O prazo acabou. A minha alma já não precisa que a oiças. Porque agora encontrou maneira de se ouvir a si própria.

A ARTE DO DESPACHANÇO

A pedido de duas amigas em aflição, pensei no assunto e aqui vai a minha insignificante ajudinha. Perante a penúria chocante de informação sobre este tema, tive de pensar seriamente no assunto da arte de dar com os pés.

Primeira coisa importante a analisar: saber se chegou mesmo a hora de agir. Algumas dicas: sente tolerância zero aos vícios dele/dela? Até a forma como respira a/o irrita? Sonha em mudá-lo/la? É mulher e quando ele começa a falar de assuntos sérios consigo, só lhe ocorre pensar na cor do próximo verniz a usar? Detesta andar de mão dada com o dito/dita na rua? Deixou de cumprir os requisitos básicos de namorado/o? Se respondeu positivamente a um destes sinais, lamento informar que está na hora de iniciar o processo de despachanço.

Mas espere aí. Tente ainda estas técnicas s.o.s? Tentou, num dia feriado, uma perfeita novidade na sua relação, por exemplo uma conversa?
Ele/ela não apresenta sinais patológicos graves?
Fez uma estimativa da magnitude da devastação a infligir ao/à despachado/a  e não prevê consequências nefastas para si?
Começou a perceber que ele/ela se desculpa que não telefonou porque estava em Freixo de Espada à Cinta ou Cinfães e não havia rede? Coloque ainda mais estas duas questões basilares: 
(i) Fica nessa ou põe-se a andar? 
(ii) Está feliz ou tem instintos suicidas?
Respondeu às segundas hipóteses de ambas as questões? Ok... Então inicie já este importante ritual iniciático de dar com os pés. Essa pessoa não lhe interessa! E se é mulher, e desde pequena que lhe contam a história de que é melhor estar com um homem, qualquer homem, do que estar só, desengane-se. Mentiram-lhe! Se é homem e lhe disseram que só terá a sua dose diária de sexo numa relação estável, quem lhe vendeu esta também o enganou...

Vamos então às duas técnicas mais elementares e menos invasoras: 
(i) Desapareça! 
(ii) Tente impingi-lo/impingi-la a alguém em desespero.

Não resultou? Então vai ter de avançar. Seja forte. a melhor hora para um despachanço será sempre entre as sete e as oito de uma sexta-feira, as férias do verão ou o período natalício. 

E aqui, se a relação for à distância, atenção aos fusos horários!:)

FLUTUAMOS OU AFOGAMO-NOS


Diz o mito que quando os três irmãos Júpiter, Neptuno e Plutão derrubaram o pai, Saturno, dividiram o mundo em três partes. Júpiter ficou com os céus, Plutão os mundos subterrâneos e Neptuno os mares, com a forquilha e as rédeas do reino das águas. O seu mau feitio seria responsável por maremotos, tempestades, inundações, caos, confusões e tudo o que alastra sem controlo. Na bonança, Neptuno representa simboliza a sensibilidade artística, a compaixão, a espiritualidade. Não aceita convenções nem limites. É o sonho e o pesadelo. Flutuamos ou afogamo-nos.


Neptuno no signo do qual é regente, Peixes proporcionará a oportunidade para a descoberta de faculdades espirituais, para o desenvolvimento de formas elevadas de arte e grandes progressos nas curas. Todos os signos sentirão sintomas especiais, mas entre os 12 signos há 4 que passarão por novas experiências com mais intensidade: Peixes, Virgem, Gémeos e Sagitário. Sentirão particularmente a presença deste planeta nas suas vidas: um elo intuitivo com a mente inconsciente; a possibilidade de surgirem medos e problemas neuróticos originados pela captação das energias do inconsciente colectivo; um eventual aumento de fortes tendências místicas, independentemente da religião praticada; haverá a necessidade de privacidade e isolamento para a busca espiritual interior; podem surgir espontaneamente lembranças de encarnações anteriores e muita sabedoria espiritual trazida do passado. Estaremos perante um caso único desta humanidade: o planeta a ascender para a 5ª dimensão e, não por acaso, Neptuno a transitar por Peixes. Este será um contacto muito complexo. É o contacto do divino em nós. É claramente o trânsito que mais faz reflectir sobre a vida e a morte. É necessário aprender a pensar nestes assuntos com uma perspectiva filosófica e metafísica, sem medos. Enquanto solvente, Neptuno abala as raízes da própria personalidade, mas de uma forma muito subtil. Velhos conceitos e atitudes desvanecem-se lentamente, durante os mais de 3 anos do trânsito, e são substituídos por novos conceitos e atitudes.Vai desactivar as obrigações sociais desnecessárias; os anseios e objectivos profissionais são afectados de forma nebulosa; a vontade de viver é vaga e poeirenta; as pessoas com objectivos rígidos são as que sofrem mais; a carreira torna-se decepcionante; o trabalho que fazem parece-lhes completamente inútil; o ambiente onde trabalham parece-lhes decepcionante; sentem necessidade de envolvimento espiritual; estas buscas espirituais podem ser afectadas por conceitos de ateísmo ou por experiências de familiares com seitas ou religiões muito ortodoxas; as filosofias mais metafísicas ou místicas são excelentes para este trânsito.São mudanças subtis, em que os novos valores e atitudes só funcionam se forem universais. A evolução da alma e do espírito requer maior consciência. Perdemos a velha esperança, para criar uma nova, mais universal. Em suma, romper com o velho modelo e criar um novo.

6.11.2012

HÁ PESSOAS QUE SE FALAM SEM PALAVRAS


Fomo-nos cruzando por ali, quais passageiras em trânsito num aeroporto de portas entreabertas para o mundo. Não para o nosso mundo... para um outro mundo  no qual nem sempre nos integrámos.

Há pessoas que se falam sem palavras. Contigo sempre assim falei, em diálogos feitos de silêncios que me iam acompanhando dentro e, algumas vezes, fora dali.

Depois, partiste para o teu mundo. Não me precavi contra a tua ausência. Foi-me entregue o facto numa bandeja... 
- Ela já cá não está. - disseram-me.

Agora vamo-nos cruzando por aqui, neste outro mundo... embora pressinta que podíamos, se quiséssemos, encontrar-mo-nos  olhos nos olhos e sem pestanejar.

Tu és uma mulher que nos chega à alma. Obrigada por teres tocado a minha.

P.S. Pediste, aqui tens! :)

6.10.2012

QUANDO A MEMÓRIA SE ESVAI

Numa sala de seres adormecidos, há uma mulher desperta. Ansiosa... - dizem-me. Parece que pressentiu a sua vinda. Entro e sorrio-lhe. Aproximo-me e abraço-a. Ligam-nos laços fundos, de outras eras, de outras dimensões... Observa-me de olhar cúmplice! Reconheceu-me... Agarra-me o casaco e passa devagar os dedos pelo tecido.
- Não conhecia este... - diz-me. E continua a sua narrativa mental... Tens a chave? - pergunta. Vai já fechar a porta. Eles puseram o relógio de corda antigo no quintal. O relógio de corda que era do teu avô. Eu não quero o relógio no quintal.
Respondi que tinha a chave, que iria fechar a porta e que retiraria o relógio de corda do quintal. Tranquilizou-se. Eu não... Mal tive tempo de me preparar. De entrar no seu mundo, um outro mundo, um novo mundo...ou será este o mundo novo, aquele que nos espera a todos...

Respiro fundo. É preciso manter a calma. Mostrar a força. Manter o sorriso... Enquanto lhe dou o almoço, colher a colher, devagarinho, vou olhando em redor. A D. Emília já não sabe quem é, onde está, quem foi... Deram-lhe 3 comprimidos, ela colocou-os na mão e deitou-lhes um copo de água em cima. A D. Vitória vive no sofá ao lado. É nova ali. Veio substituir quem já partiu. Quis saber o seu nome. Ela respondeu-me apenas: - É a vida! Sim, pensei eu aterrada. É a vida!

A D. Luísa está lúcida mas não anda. Vive há décadas numa cadeira de rodas e tem o sorriso mais bonito que eu já vi. Enche-me de beijos e eu a ela sempre que nos vemos. Pergunta-me sempre: - Então veio ver a sua mãezinha?  Respondo-lhe que sim e ela continua sempre a sorrir... A D. Ana também está lúcida. Tem um problema que lhe dificulta o andar. Devora livros. Levo-lhe livros. Vê-me e diz-me: - Gosto tanto de a ver. E eu a si. - respondo-lhe, fazendo-lhe uma festa no rosto. Olha para as pernas paradas, olha para mim e atira:
- É andar enquanto há pernas, menina!
A D. Guadalupe chama pela filha o dia inteiro. Ouço uma funcionária dizer-lhe que a filha não está ali e que não pode chamar por ela... A D. Guadalupe faz que ouve e que percebe mas é mentira. Continua a chamar pela filha até ser noite... Sim. - pensei aterrada. É a vida.

Levanto-me e passo pela D. Francisca. Tem 80 anos e bate palmas o dia inteiro enquanto cantarola uma canção que só ela entende. Olha bem para dentro de mim e diz-me do nada: - Eu era muito bonita quando era nova. Respondo-lhe que ainda é e ela, feliz, continua a bater palmas...

É uma sala ampla e branca com várias janelas para a planície. A um canto,  de olhar meigo e impotente, senta-se ela. Pede-me ajuda com o olhar... Entro por ela pelos afetos que nos unem. Sei que esses estão intocáveis. Quero raptá-la e trazê-la comigo. Parece perceber. Olhou para os meus pés e, subitamente ouço:
- Estes sapatos são deste ano? Rejubilo de felicidade pelo momento de lucidez. Por pouco tempo... A chave, pergunta-me, a chave... já fechaste a porta?

Deixei a Casa de Repouso. Olhei de frente a planície. Já não olhei para o céu. Deixei que as lágrimas caíssem a rodos...  É a vida... É andar enquanto há pernas...

6.09.2012

CONFIRMAÇÕES

Hoje confirmei várias coisas de que andava há muito a desconfiar:

(i) há pessoas com fair-play;
(ii) há amores intermináveis;
(iii) há palavras que nos falam;
(iv) há cidades para se descobrir devagar;
(v) há amigos verdadeiros;
(vi) há vidas que começam tarde e...
(vii) há quem se esqueça de viver.

ESCREVO-TE EM VOZ BAIXA PARA NÃO TE ACORDAR

Hoje escrevo-te em voz baixa para não te acordar. Nestas noites de audácia, só as palavras me acompanham. Tu não. Não me precavi o suficiente contra isto... e pensava estar precavida. Fui sempre uma pessoa apressada... mal chegava e já estava de partida. Até hoje... Não me apetece apressar. Quase já não me apetece partir. Apenas esperar. Depus as máscaras e parei. Pus de lado a efabulação. Quero o real... este real onde tu existes. E faço o melhor que posso para não me perder nesta saudade. Ou nos silêncios.

Invejo-te. És mais livre do que eu. Mas a gente habitua-se a tudo... Até a viver neste trapézio a fazer furos na rotina e de onde sei de antemão que cairei.

KITSCH



Kitsch is a form of art that is considered an inferior, tasteless copy of an extant style of art or a worthless imitation of art of recognized value. The concept is associated with the deliberate use of elements that may be thought of as cultural icons while making cheap mass-produced objects that are unoriginal. Kitsch also refers to the types of art that are aesthetically deficient (whether or not being sentimental, glamorous, theatrical, or creative) and that make creative gestures which merely imitate the superficial appearances of art through repeated conventions and formulae. Excessive sentimentality often is associated with the term.

Hoje foi um dia estranho. Ou eu estive mais sensível ao exterior, ou o kitsch está a aumentar exponencialmente e eu não tinha dado conta. E é perigoso! :) Entrava eu na segunda circular quando me deparo com um Mercedes mesmo à minha frente. Olhei e vi-as. Esfreguei os olhos e voltei a olhar. Podia ter sido uma visão. Mas não era. Ali estavam cinco almofadinhas de tricot impecavelmente alinhadas contra o vidro traseiro do carro...

Um dia perguntaste-me o que era o Kitsch, lembras-te? Para alguns é considerado uma forma de arte... inferior, é certo! Dada ao ridículo para alguns e à beleza para outros... O kitsch são os cãezinhos de louça no móvel da sala, ou os outros, os de cabeça a abanar pendurados no espelho retrovisor; o kitsch são as nossas senhoras de Fátima de plástico na mesa de cabeceira... por cima de um naperon de renda branca... O kitsch são os pais natais do chinês e os lacinhos e as fitinhas que os enfeitam.. o kitsch são os galozinhos de Barcelos ou as torres Eiffell a fazer de porta-chaves...

Mas o kitsch é sobretudo uma manifestação de gosto! Duvidoso para uns e de excelência para outros...

That's the world we live in...

6.08.2012

HOW MUCH WE WOULD BE WORTH?

THE REAL MEASURE OF OUR WEALTH IS HOW MUCH WE WOULD BE WORTH IF WE LOST ALL OUR MONEY...

AVANÇAR EM LINHA RETA

Já não consegue avançar em linha reta. Desviou-se do trilho e perdeu-se nos caminhos, nas veredas... Já lhe é difícil vir a direito para casa... Distrai-se no teu rosto. Perde-se nas tuas mãos. Afunda-se no teu sorriso. Dilui-se na tua voz. Tudo o que é importante, ou parecia importante, ou era importante, desfez-se em pó. Tudo se desmoronou quando te foste. 

Tenta convencer-se de que vai conseguir... que a estrada, longa e sinuosa a levará a ti. Mas depois vem-lhe a verdade das noites... destas noites em que o sono se vai e a saudade fica. E apetece-lhe gritar a verdade. essa, que permanece sempre... mesmo após o mundo se desmoronar e dissolver... Está numa cruzada... em peregrinação... até ao dia em que conseguir voltar a encontrar aquele pedaço de si que lhe roubaste. 

Ficou parada... acabou-se a gasolina no meio do deserto... Sem bússola, desconhece o caminho de regresso a ti.