Número total de visualizações de página

7.12.2012

MULHER

Gosto de ser mulher. Gosto especialmente de tudo o que ser mulher implica. Gosto de me emocionar com pequenos nadas e gosto, gosto muito, de não resistir a tentações, essas tentações em forma de vestidos e carteiras e sapatos e relógios e pulseiras e anéis, desses que ficam mesmo quando os dedos se vão... 

LIÇÃO DE VIDA


São miúdos. Têm 13 e 14 anos. Ele, mais calado. Sensível. Com apenas 5 ou 6 anos sentou-se na minha varanda, olhou-me e disse-me: - Está-se muito bem aqui, madrinha. Percebi, ali, que se tratava de um ser especial. Uma sensibilidade acima da média. Alguém que veio ao mundo para o saborear. Ela, cerca de catorze meses mais nova. Nariz empinado. Sensível. Meiga. Comunicativa. Expressiva. Fala pelos cotovelos. Os dois, formam um par imbatível. Não imagino um sem o outro, a crescerem lado a lado. Cúmplices. Confessam um ao outro as suas descobertas.
São meus afilhados. Porque a mãe insistiu. E para tal tive de andar às turras com o tal do padre Nuno.
Hoje encontrámo-nos. Ementa: gelado Hagen Dazz. Conversámos sobre escola, férias, música e namorados. Mais tarde, juntou-se a nós o irmão mais velho. Um jovem responsável e muito meigo por quem nutro um carinho especial.
Vi-os espontaneamente dividirem com ele parte do que eu lhes tinha dado para comprarem um presente de aniversário... Fiquei sem palavras!
Que lição de vida!

JÁ ME CHEGAVA

Já me chegava de exames, testes, termos, pautas, atas, planos, relatórios, reuniões, avaliações e revaliações por este ano...

A CABANA NA LUA

Os homens não sabem. Ou melhor, alguns homens não sabem. Ou melhor ainda, a maioria dos homens não sabe... que existe uma íntima relação entre a psique das mulheres e o seu funcionamento ovárico. Não sabem que o nosso ciclo mentrual começa com um estado de espírito de primavera, de desinibição e optimismo e até, mais ou menos à fase de ovulação, estamos receptivas, mais abertas aos outros. Depois, entramos no outono do nosso ciclo em que ficamos introspetivas e mais tendentes à reflexão. 
E muitas de nós, quase todas, procuramos voltar a casa, à nossa cabana na Lua.

BLOOD TYPE

Não vale a pena ir por outro caminho que não este. Mesmo quando tudo parece desmoronar à minha volta, mantenho-me firme! 
Porque, haja o que houver, venha o que vier, haverá sempre serra de Sintra, barcos no Tejo e noites de luar! 
BE POSITIVE!

O CARDUME


Há algum tempo atrás, quando ainda valia a pena, recordo-me de ter acordado, olhado em redor e ter percebido que a casa onde vivia precisava de uma volta. Assim, saltei da cama, tirei os lençóis, coloquei lavados. Sacudi tapetes. Aspirei. Lavei o chão do quarto. Limpei WCs. Esfreguei a banheira. Pus roupa na máquina. Sequei a roupa que lá estava. Aspirei o hall. Sacudi mais tapetes. Limpei a varanda. Tratei dos gatos. Arrumei armários da despensa. Reciclei lixos. Recolhi roupa. Levei-a para a engomadoria. Trouxe roupa da engomadoria. Fui ao super. Fiz as compras. Carreguei as compras. Arrumei as compras. Limpei gelo do congelador. Fiz jantar. Lavei a loiça que não cabia na máquina. Pus a máquina a lavar. Arrumei a loiça. Perfumei a casa. Pus a mesa. Fiz um chá de canela e sentei-me a descansar um pouco no sofá a olhar para a minha peça de arte favorita: o cardume. Foi então que ele chegou e disse:


 - Sortuda, TODO O DIA EM CASA SEM IR TRABALHAR! O que é o jantar?
Nesse dia percebi que alguém estava ali a mais.

7.09.2012

FELICIDADE

Há dias em que a ideia de felicidade se me atravessa de forma mais intensa, especialmente quando vejo as pessoas que mais amo apertadas numa teia de insatisfação e desmotivação provocada pela ideia de que a felicidade vem de fora, do exterior...
Há muito que me deixei disso... Claro que há condições fundamentais à felicidade: a existência de três coisas, basicamente, dizem os especialistas. Um projeto profissional satisfatório, um projeto afetivo (ninguém gosta de morrer só) e um projeto cultural. Agora, basta fazermos as contas desta equação e vermos onde é que a coisa nos falha ou falta...
Parece simples...

7.07.2012

PRIVATIZAÇÕES

Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, e entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação do mundo... e, já agora, privatize-se a puta que os pariu a todos.

José Saramago, Cadernos de Lanzarote, Diário III, p. 148

CANELA

Cá em casa vai com tudo. Começou por ir com os gelados e os morangos e a gelatina e os pudins e o arroz doce e os pastéis de nata e todo o tipo de fruta mas agora já vai com arroz árabe e serve-me de tempero à carne e ao peixe sem esquecer as misturas de chás que se pode fazer com ela. Pois que sim! Entrou definitivamente na minha ementa e já não passo sem ela. As mentes mais tortuosas (e eu conheço pelo menos uma), estará já a pensar nos efeitos colaterais deste exagero de canela mas repondo aqui a razão dos factos, importa lembrar que a canela, dizem os especialistas, exerce um poder redutor do valor do colesterol e da açucar no sangue. Já para não esquecer que esta fantástica especiaria, no início do séc. XVI era trazida por comerciantes portugueses diretamente do Ceilão (atual Sri Lanka), chegando um quilo a valer dez gramas de ouro. Sim, percebeu bem... dez gramas de ouro... Segundo contava um navegador holandês:"as margens desta ilha estão repletas desta planta e é a melhor em todo o oriente; quando uma pessoa está no litoral, pode-se sentir o aroma a oito léguas de distância".
Pois eu cheiro-a a muito menos léguas... mas quero cheirá-la brevemente no seu habitat natural.

7.06.2012

NUS E PARA SEMPRE

Com o passar do tempo, quase todos os casais que eu conheço se transformam em colegas de trabalho, vivendo uma relação de cordialidade cujo grande objetivo é o bom funcionamento da empresa que é, evidentemente, o seu casamento. Trabalham em equipa, muitas vezes, o que é de louvar e, embora haja habitualmente um gestor de projetos, os objetivos a alcançar resumem-se basicamente a manter os filhos alimentados e as contas pagas... Para estas pessoas, partilhar a conta da água tornou-se mais importante do que partilhar os beijos e, tal como numa empresa, há também que fazer contenção de custos logo, as pequenas grandes coisas que mantinham a chama acesa dão lugar à necessidade de cumprir uma ordem de trabalhos que se repete à exaustão.
Fico a pensar que, se as emoções são o colorido da alma, nestes casos as almas escurecem pouco a pouco e os casais limitam-se a realizar rotineiros actos higiénicos de fim de semana. 
Será que nunca se ama como nas histórias? Nus e para sempre?

DEDICAÇÃO


Desde aquele dia, ela decidiu escrever-lhe todos os dias e dedicar-se a ele como os marinheiros antigos se dedicavam ao mar...

NORTE E SUL

Viver é fácil porque meço a partir de ti o Norte e o Sul. Basta que existas para que os meridianos se arrumem e os oceanos não transbordem. 

Teolinda Gersão

7.02.2012

CONFISSÃO



Não queria precisar disto mas já preciso como de ar, de sol, de mar...  Sei que é um voo demasiado arriscado que fazemos... um voo rasante e perigoso. Mas não me quero desfazer de ti. Já não consigo... Guarda para ti esta confissão e faz dela o que quiseres. Não me quero perder de ti agora que te encontrei.
E fico assim. De joelhos encostados ao queixo, mãos entrelaçadas sobre os joelhos, contemplandode olhos fechados, a tua imagem ou, na falta dela, a minha imagem de ti...
Nem sei se queres voar, ou voar comigo ou se até terás medo de voar... Mas como é que se voa, com uma asa presa na mão de alguém?
Diz-me, sussurra-me ou grita-me, que é possível voar com uma mão presa na tua mesmo que nos estampemos os dois.


ÁGUA E FOGO

Perante a possibilidade de voltar a Budapeste, quinze anos depois de lá ter passado dois fugazes dias num périplo pelos países mais a leste, quando viajava como guia e escort de grupos de viagens organizadas, dei por mim a reler o meu caderno de viagem...
Das cidades que então visitei, Budapeste, Praga, Viena, Estrasburgo e Bratislava... lembro-me de, num momento único, ter pensado em como gostaria de voltar a Budapeste acompanhada. Essa cidade que me encantou pelo seu misto de simplicidade e sofisticação  e que, já na altura, me  pareceu um filão ainda por explorar....
Budapeste, centro europeia, tem para mim uma magia inexplicável e os seus habitantes orgulham-me por que não se perdem em lamentos apesar da cidade ter sido destruída 31 vezes e erguida outras tantas... Não me lembro já de muito pois estava de passagem e em trabalho... mas as pontes sobre o Danúbio ao final do dia ficaram retidas na minha memória como também ficou aquele café tomado sozinha no café Gerbeaud... Depois lembro-me dos planos que ficaram por concretizar: deambular por Buda (água) e depois por Peste (fogo ardente), passear no Danúbio ao fim da tarde, ir ao Hamman, atravessar as pontes a pé, subir ao monte Gellert, provar o vinho húngaro, ouvir música zíngara nas ruelas do bairro do castelo e sobretudo, ver a cidade sem pressa...
Constato que se mantém intacta em mim o desejo de voltar. Mas uma coisa está radicalmente diferente: desta vez quero ver Budapeste através do nosso olhar...

6.30.2012

DO YOU FOLLOW?


JUST DO IT

You must do the thing you think you cannot do.
Eleanor Roosevelt

RUGAS

Gosto de me estender ao sol como os meus gatos e sentir que a calor no meu rosto cria rugas mas me apazigua a alma.

TRÊS TRISTES TRAGOS

"Deixei o hospital naquele dia com uma profunda sensação de vazio. Era como se o final de tarde em Lisboa se assemelhasse a um enorme e frequentado ghat indiano nas margens do Ganges, onde todas as pessoas tinham decidido ir morrer. Eu fui para casa embalada pelo som do trânsito; fiz um gin tónico e bebi-o em três tragos: três tristes tragos."

in Eu Mulher de Mim, Edilções Colibri, pág. 92

SEROTONINA

"(...) A Bárbara optara definitivamente pelos comprimidos. Havia-os de todas as cores e para todos os fins. Quando falei com a sua psiquiatra e lhe demonstrei a minha preocupação pelo facto do brilho dos seus olhos ter  desaparecido, ela fitou-me com ar indiferente e enumerou uma sequência de substâncias químicas que faltavam à minha amiga.
Fui para casa com serotoninas, oxitocinas e dopaminas a faiscarem aos meus ouvidos e um único pensamento: por que razão viver tinha de ser um processo tão difícil para alguns de nós."


in Eu, Mulher de Mim, Edições Colibri, p. 44


Sei, sinto, vejo... 
Estás de novo à beira do abismo e, mais uma vez, não te deixarei cair. E se caíres, estarei lá para te amparar na queda!