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6.24.2012

SEM PIRUETAS


Uma coisa parece certa. Eram quase dez horas da noite e nada lhe fazia sentido. Nem um livro já conseguia apaziguar tanta revolta. Chegou de repente. Toda de uma só vez. A revolta... e a raiva, a ira, a dúvida...
Porquê? Porque tinha de ser assim?
Deixara-se ficar ali. Parada. Quieta. Deixara-se cair, simplesmente, sem estrondo. Sem piruetas. Sem alvoroços. Discreta... Sem ruídos de fundo... Quase um silêncio.
Chegou o dia e, tanto ela como o rio, os pássaros, as árvores e a ponte, valeram-se das mais variadas estratégias para suportar aquela dor...
Há dias e noites assim... dias e noites sem atrito, sem confronto, sem diálogo... noites de desistência... em que apetece chorar... apetece vomitar até...

NÃO FOI ELA

Não, não foi ela que começou a escrever era ainda muito pequenina...
Foram a suas mãos...

DE MOLHO



Há quem diga que as cartas de amor se escrevem à noite, e se deixam de molho num bom caudal de lágrimas até à manhã seguinte. Depois, releem-se e rasgam-se...
Nada disso, digo eu que não me lembro de ter escrito uma única carta de amor desde que sou gente. Dá-me para escrever de tudo menos disso... Mas as melhores cartas de amor devem ser as que são escritas a meio da tarde, sol no rosto e vento nas ideias, a varrer a prosa dos arremessos menos lógicos  que o amor pode proporcionar, esse mesmo que segundo Dante, move o sol e as outras estrelas.
E foi assim que dei por mim a escrever-te hoje, em pedaços de papel arrancados a folhas que queriam voar para longe. Tu, que contrariamente ao expectável, me dominas e controlas. Logo a mim, que não me habituei nunca a ser controlada...
Nunca nos cruzámos antes mas eu já sabia o teu nome, que sempre tive jeito para dar largas à imaginação a partir do nada. Quando te vi, quando nos vimos, medi-te de alto a baixo e soube, ali mesmo, que serias o maior dos meus casos de amor. O maior dos maiores. E gosto, contragosto, de ser subjugada por ti, até o suor me escorrer pelo corpo. E a necessidade que tenho de ti é urgente... mas avanço devagar, forçada a este caminhar lento a que a vida me força, essa vida que julga que sabe muito mais do que nós. Gostava que encontrasses em mim o que julgaste irremediavelmente perdido, seja isso o que for. Estás continuamente comigo, num recanto da minha mente incansável. Sou demasiado vertiginosa para ti... sei que te posso assustar. Mas conheço o teu cheiro de cor e sei localizar todas as marcas do teu corpo... Corro a toda a velocidade para a beira do precipício que tu podes ser na minha vida. Mas continuarei a correr porque, simplesmente, não me apetece parar. É possível amar-se alguém que mal se conhece? Não sei... És como um lobo vestido de lobo e eu caio nas tuas ciladas... nas ciladas que me fazes com as mãos e com o teu olhar... Gravei na memória tudo o que te diz respeito. Já quase não recordo os meus pensamentos, aqueles de antes, antes de estarem cheios de ti até transbordarem. O pior dos desastres da minha vida aparentemente arrumada seria apaixonar-me assim. E aconteceu! 
Quero agora de volta tudo o que extorquiste de mim: a minha serenidade, o meu equilíbrio, a minha paz... 



6.22.2012

ESTAMOS TODOS A JOGAR O MESMO JOGO

Assisti há dias a uma palestra sobre o crescimento pessoal e a expansão da consciência... Entrei receosa mas sai rendida às ideias apresentadas. Talvez pela qualidade dos oradores, um mestre de Reiki e o outro instrutor de yoga ou talvez pelas energias que circulavam na sala ou as duas coisas não sei bem... Basicamente, a palestra pretendeu passar ensinamentos dos Kahunas, curadores xamânicos e para tal, começou pela Física Quântica e sobre os paralelos que se revelam idênticos em culturas milenares... Quem somos nós, afinal? Ouviram-se relatos de 14 cientistas sobre o que é a energia, sobre o estudo do movimento do átomo, sobre as toerias de Heisenberg... O mundo é mesmo o campo de todas as possibilidades e o funcionamento dos átomos está além do tempo...
Assim, seremos responsáveis pela nossa própria realidade? E as coincidências serão meros cruzamentos de energia? 
Chegou-se então ao ponto de refletir sobre a forma como lidamos com os obstáculos. Interessei-me... Abolir os pensamentos destrutivos, todos eles... - disseram-me. E usar as 4 leis da energia dos índios Kahunas:
1ª- IKE - criamos a nossa realidade através de crenças, desejos, atitudes e pensamentos persistentes;
2ª - MAKIA - recebemos aquilo em que nos concentramos; os pensamentos ou sentimentos que nutrimos consicente ou inconcientemente moldam a nossa realidade; conselho: não pensar no que ficou para trás, seja em forma de trabalho, pessoa, oportunidade... Basicamente esquecer a última coca-cola gelada do deserto...
3ª - KALA - Somos ilimitados; tudo é formado de átomos que podem ser moldados pelo nosso pensamento.
4ª - MANAWA - o nosso momento de poder é o AGORA e podemos, se quisermos, mudar crenças, pensamentos e padrões de comportamento que nos aprisionam e impedem o nosso crescimento.

Sai dali a pensar que, vestida com outras roupagens, aquilo que me foi apresentado foi a teoria de John Grinder que há tanto tempo usamos em coaching e em formação sobre Programação Neurolinguística. Perguntas básicas: O que queremos da vida? Qual o nosso projeto? O que fazer para o alcançar?
Em suma, temos o poder dentro de nós. Só precisamos de o resgatar! Como eu costumo dizer aos meus formandos, todos temos experiências de "pico" e experiências de "flow" mas estamos, TODOS, a jogar o mesmo jogo.: chama-se VIDA...  

6.21.2012

SOU FELIZ SÓ POR PREGUIÇA

No final de um curso, disseram-me: 
-Vê-se mesmo que a formadora é uma mulher feliz!
Engoli em seco... estremeci... voltei a engolir em seco e, recomposta, respondi mais ou menos isto: Acho que sou feliz. Que sempre fui... A felicidade é uma vocação... Todos somos chamados a ser felizes... 
Hoje, ainda penso nesse dia. Sim, sou feliz... Sou feliz só por preguiça... Porque... porque... poderia não ser. Teria, sem me esforçar, algumas - fortes - razões para ser infeliz. Mas recuso-as. Todas. Uma a uma... Luto contra elas dia a dia. 
Encontrei-me... Levei tempo até chegar aqui... Três décadas, no mínimo, à deriva sem saber o caminho... Projeto de vida? Tenho o possível. Talvez ainda não o sonhado... 
Sobretudo, aprendi cedo a saber esperar. Foi o mais difícil de aprender... Apostar naquilo que tarda em chegar. E que não sei se chegará...
Tenho aguardado, com a calma possível, por um projeto afetivo que complemente a minha vida... sem o qual vivo bem mas com o qual sei que viverei melhor.
Entretanto, nesta caminhada a que chamam vida, tenho seguido o princípio de Píndaro e não me tenho dado mal... 
Não resulta querermos ser o que não somos!

LÁ ESTAVA ELE...

Nove da manhã. Matemática. Entraram. Por ordem. Sentaram-se. Sala cheia. Putos. A rondar os quinze anos. Jeans. T-shirts. Ténis Nike. Mochilas. Calculadoras. Canetas...
Contidos. Aguardaram pelo enunciado. Fiz a distribuição. Do exame. Das folhas de rascunho. Conferi as identidades. Assinei as filhas. Ia já sentar-me quando... 
Lá estava ele... estrategicamente colocado, após te sido ajeitado com cuidado em cima da calculadora... Olhei de novo. Pensei ter visto mal. Era. Era mesmo... uma figura de cristo em madeira castanha...
Sentei-me e fiquei a pensar nesta improvável equação...

O QUE FAZER COM A LÍNGUA


A propósito da Declaração de Amor à Língua Portuguesa que por aí anda a circular, pus-me a pensar no assunto, concluindo que sim, o ensino do Português ou da Língua Portuguesa exige ser repensado; sim, o acordo ou desacordo é uma inutilidade mas não vem daí mal maior ao nosso mundo; sim, as aulas podem ser uma grande chatice para o professor que tem de ensinar Padre Antonio Vieira às oito da matina; sim, a literatura portuguesa tem muito mais e melhor do que Os Lusíadas, desculpem lá... A idiotice a que a situação do ensino da nossa língua chegou é tão grande, que hoje nas indicações para exame nacional numa escola portuguesa, lia-se: Os alunos devem utilizar a Língua Portuguesa para responder às questões da Prova de Exame"...
Pois, não fossem eles, atrevidos, escrever em mandarim... 



6.20.2012

FILOSOFIA CÓDIGO 714

Filosofar às nove da matina após uma noite má dormida não indicia boa coisa  mas hoje foi assim  mesmo e eu tinha de me manter acordada em mais uma vigilância...
Tudo começa com Spinoza e a sua correlação entre o homem e a pedra no que à consciência dos seus desejos ou à ignorância das causas que os determina diz respeito. Somos nós que nos mantemos em movimento ou, qual pedra, só descemos colina abaixo empurrados pelo vento? Como a pedra, pensamos ser nós os impulsionadores da nossa própria ação acreditando sermos livres: "Assim, (reza o dito texto) é esta liberdade humana que todos os homens se vangloriam e que consiste somente nisto, que os homens são conscientes dos seus desejos e ignorantes das causas que os determinam."
SERÁ?
Adiante...
Kant surge no grupo seguinte com a MORAL... e o texto, de grande utilidade nacional, deveria servir de cartilha aos políticos e ser a oração matinal na Assembleia da República... "Age de modo que a tua regra de conduta possa ser adotada como lei por todos os seres racionais". Tal como deveria ser a teoria da Justiça de Rawls (John Rawls) leitura obrigatória em todas as escolas e empresas, igrejas e hospitais... Mais do que nunca, parece-me urgente voltar aos princípios de conduta que se vão perdendo pelo caminho...
Seguiu-se Platão. Sobre o mau uso da retórica. Que grande atualidade de temas! "Quem se quer orador não tem necessidade de conhecer o que realmente é justo, mas o que aparente sê-lo à multidão que deve julgar: não o  que na realidade é bom e belo, mas quanto dá dessa aparência, já que daí deriva a persuasão, e não da verdade!" Perigoso! E real! O eterno jogo ser/parecer mesmo à nossa frente, a saltar da vida para a folha de exame... Um exame sobre normas de conduta, valores (ou a falta deles), verdades e menturas, mau uso da palavra, falácias de todo o tipo... Que atualidade! E tudo termina em grande quando se pede aos alunos para testarem a validade do seguinte argumento:
Todos os pedantes são enfadonhos.
Alguns intelectuais não são enfadonhos.
Logo, alguns intelectuais não são pedantes...
Proponho que se troque "pedante" por "político" e "enfadonho" por "corrupto" a ver o que dá...
EU, PROF FARTA DO SISTEMA, ME CONFESSO!

6.19.2012

FAMÍLIA

"Às vezes penso que, possivelmente, não precisamos de pai e mãe. A mim a família só me atrapalhou. Tive que começar tudo pela outra ponta."

António Alçada Baptista, O Tecido do Outono

A HIPNOSE DA EDUCAÇÃO

"À maneira que passaram os anos dei-me conta que toda a educação é uma forma de hipnose, de lavagem ao cérebro, de endoutrinamento donde é difícil sair com os sentidos intactos!"

in António Alçada Baptista, O Tecido do Outono

NÃO SEI VIVER COM ISTO

Não sei viver com isto...quero tudo e não tenho nada. E hoje não tive nada e uma vida não chega para viver tudo o que quero viver contigo. E depois há os dias como o de hoje em que desapareces e eu perco o discernimento. Atrapalhas-me a vida com o teu silêncio. Caso contrário viveria os meus dias como se não tivessem fim. Parece que é de um momento para o outro e de repente que a gente leva um golpe e hoje foi o dia... feito de silêncios perturbantes porque me cheguei a ti e não estavas lá.
E os dias correm e desaparecem... e a este vazio que fica quando o dia chega ao fim, que lhe faço?

EXAME DE MATEMÁTICA B

Só almas mesmo muito elevadas, a roçar o estado Zen é que aguentam... e mesmo essas, tremem perante uma vigilãncia de exame. Não se aguenta! Entras na escola às oito da matina para às oito e meia te darem um envelope selado com as provas... Se te atrasas e chegas ao Secretariado de Exames às oito e trinta e dois ou trinta e cinco, levas com uma falta a encarnado só justificável com um atestado médico... o que signfica que vais perder  a tarde no agradável Centro de Saúde de tua zona a pedinchar o dito atestado à tua médica de família, isto se ela não tiver ido já de férias... Porque se a gaja foi de férias, tás literalmente lixado/a... Caso o dia seja de sorte e a gaja esteja por lá e bem disposta, vai mentir com os dentes todos, pondo no papelinho que tu estiveste doente nesse dia quando o que aconteceu foi que te atrasaste dois ou três minutos embora o exame propriamente dito só comece às nove horas e  tu tenhas chegado às oito e trinta e cinco e os alunos só entrem na sala às oito e quarenta e cinco e o toque de cortar o envelope com a tesoura só apite às nove.
Se não entenderam façam de conta ou eu explico de novo!

Ultrapassada esta primeira fase, estás na sala, os alunos entram, são distribuídos pela ordem de pauta, preenchem o cabeçalho da folha de exame, conferes a sua identidade, cortas o dito envelope, distribuis os enunciados e sentas-te. Na rifa, hoje saiu-me Matemática B, 12º Ano, Código 335, Duração 150 minutos.

150 MINUTOS? Não queres acreditar que são tantos minutos... nunca imaginas o tempo que demoram cento e cinquenta minutos a passar... uma verdadeira epopeia da eternidade. O que significa que até às onze e meia, não existes! A única coisa que podes fazer é respirar! É então que tentas distrair-te a tentar decifrar o enunciado da prova que exame que para uma prof de Português surge em forma de hieróglifo: o comprimento de um arco de circunferência mais a área de figuras planas com volumes e progressões e sucessões e sistemas de restrições e círculos de valores de variáveis e espaços percorridos e taxas de variações de função, trapézios isósceles e os quadriláteros obtidos.

Durante duas horas e meia pedem-te que não tujas nem mujas, como se o mundo acabasse ali. Mas não acaba... Sai dali convencida de que a taxa média de variação da função N pedida(sendo, neste caso, função N o tempo disponibilizado aos alunos para realização do dito exame e aos profs para suportarem a hercúlea missão) não é nem positiva nem negativa: é sempre, sempre excessiva!

6.17.2012

SÍNDROME DE ESTOCOLMO

São mais, muitos e muitas mais, aqueles e aquelas que dela sofrem Tenho andado mais atenta ao fenómeno desde que me apercebi de que isto se passava com pessoas próximas e de quem eu nunca esperaria algo semelhante. Claro que para isto acontecer, o estado psicológico da vítima tem de ser particular pois uma pessoa que se identifica com o seu agressor, de certeza que não estará muito bem da tola.

A designação deste fenómeno surge em referência ao famoso assalto de Norrmalmstorg do Kreditbanken em Norrmalmstorg, Estocolmo que durou de 23 de agosto a 28 de agosto de 1973 durante o qual as vítimas ganharam simpatia pelos seus captores, defendendo-os mesmo perante a justiça. E parece que a coisa se desenrola assim: primeiro, as vítimas começam por identificar-se emocionalmente com os sequestradores, a princípio como mecanismo de defesa, por medo de retaliação e/ou violência e pequenos gestos gentis por parte dos captores são frequentemente amplificados... Em segundo lugar, é importante observar que o processo da síndrome ocorre sem que a vítima tenha consciência disso. A mente fabrica uma estratégia ilusória para se proteger...

Mas de todas as situações em que a síndrome de Estocolmo pode acontecer (sequestro, cenários de guerra, sobreviventes de campos de concentração, pessoas submetidas a prisão domiciliária por familiares, vítimas de abusos pessoais, como mulheres e crianças), aquela que mais me tem intrigado é o caso de violência doméstica e familiar em que a mulher é agredida pelo marido e continua a amá-lo e a defendê-lo junto da família e dos amigos como se as agressões fossem normais. Em bom português: ela leva uma tareia do camandro, aparece de olhos negros, nós sabemos o que aconteceu mas ela diz que tropeçou e que caiu.

A melhor maneira de tratarmos esta síndrome de Estocolmo surge cedo, logo na escola primária. E pode, a meu ver, muito bem ser identificada na literatura infantil, no clássico conto francês, escrito por Marie le Prince de Beaumont, "A Bela e o Monstro" que conta a história de uma menina muito bonita e inteligente que é vítima de cárcere privado por um MONSTRO, e por fim desenvolve um relacionamento afetivo e casa-se com ele.
Atenção, MUITO IMPORTANTE: este conto tem de ser trabalhado como deve ser ou as crianças ainda ficam a adorar o Monstro e depois correm o risco de vir a casar com ele...

6.16.2012

ZEN AND THE ART OF HOUSEKEEPING


“I try to think of housekeeping as a short mental vacation — let my mind freewheel like I do on a walk or a swim.  
I sometimes come up with solutions to problems I didn’t even know I had.”  

Housekeeping is repetitive, monotonous and makes ME feel miserable. But can be very conducive to pondering the questions of life while, I can assure you. I took the day out for cleaning and putting things into order and as I go about my house, I get overwhelmed at everything that needs order... So, I stop a bit and come to the laptop or to the window or to the terrace or to another cigarette... The fact is that I realized I had clothes waiting for ironing since last summer... and that's a... real terrible fact! 

Staying home in a mission like this is also a very powerful way to send away some trash... and any piece that's broken, ugly or irritating goes straight to the trash bag... This saturday mission is also strong to lead me to the chocolate boxes I have been hiding from myself but, who cares? Today I do not care too much... like Scarlett O’Hara, will think, “Tomorrow is another day.”




HISTÓRIA

Esta é uma simples história de um incêndio emocional vivido entre duas cidades com uma terceira a fazer de amante.

AS PALAVRAS

Hoje acordei com palavras...a pensar em palavras... nas palavras...
Sei o crime da palavra, da fatalidade do sim e do não... Sei que os atos valem mais do que as palavras e sei que elas nos condicionam o pensamento. Sei que lutar com palavras é a luta mais vã, sei de palavras com poucas ideias, palavras vazias e frases-feitas... e sei mesmo que, em última instância, quando estamos irremediavelmente sós, as palavras não servem para nada.

Mas eu preciso de palavras como do ar... Sim, há palavras que nos beijam e há as outras, as palavras que nos matam (melhor, as que me matam...) como se fossem punhais.

Falávamos há dias entre amigas e algumas gargalhadas sobre o tema e recordei de imediato a minha profunda sensibilidade às palavras quando, após falar cerca de quarenta e cinco minutos com um meio conhecido, amigo de uma amiga, ele encerrou o diálogo com a frase: - Boa noite, vou nanar! Ora, eu que nem com crianças aprecio particularmente a infantilização discursiva, arrepiei-me e, sim, encerrei ali e para sempre aquele processo dialogante que o dito sujeito inutilmente tentou prosseguir nos dias seguintes. O mesmo se passou tempos mais tarde com o indivíduo sensato e sensível, de boas famílias e intenções que, sentindo-se jà à vontade no discurso, desejou-me boas noites por sms acrescentando: 
- Boa noite! Banhoca tomada, leitinho bebido...
Pum catrapum pum pum... Foi o fim do que não tinha começado. Aquela frase entoou horas a fio pela minha cabeça e, os diminutivos usados, ainda hoje fazem efeito... 

É claro que temendo o elevado exagero do meu espírito crítico, pedi imediata ajuda às experts na matéria. Duas amigas. Uma, como eu, referiu apenas, sorriso largo e olhar manhoso: - Compreendo! A outra, mais benevolente, usou da sua capacidade engenhoso-discursiva para tentar explicar que, em determinados contextos, um homem maduro pode dizer que tomou banhoca e bebeu leitinho... mas não nos convenceu...

Pronto! Chego assim ao cerne da questão... Será que o amor ou a falta dele nos infantiliza? Será preciso dizer ao outro Gosto de Tu? E aqui confesso-me assustada com a minha galopante perda de sentido crítico... Julgo até ter respondido com um também Gosto de Tu, só talvez justificável porque, de facto, indubitável e inesperadamente, também gosto de ti!

6.15.2012

O TEMPO DA TRAVESSIA

"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos. " 

Fernando Pessoa

6.14.2012

MÉXICO

- Uma vez, quando era pequena, o meu pai levou-me ao México.
- Mas tu nunca foste ao México...
- Não, não fui. É verdade... tens razão... Mas não é preciso ir aos sítios para se estar lá. Nem é preciso ter pai.

DIAS QUE CORREM DEPRESSA

Há dias que correm muito depressa... E quando isso acontece, podemos fugir à frente do tempo mas ele persegue-nos e já não nos podemos esconder. Há quem viva além da conta... há quem se permita excessos sem precaução...há mesmo quem prefira sentar-se numa cadeira com tempo e alma e ficar ali, à espera que o turbilhão passe. Se passar... 
E há quem precise de olhar para trás para ver de onde vem porque simplesmente não sabe para onde vai... 
Por isso, te digo: há alturas na vida em que temos de voar...

O DRAMA DE PORTUGAL

Já todos os homens de letras o escreveram, de Garrett,  Eça,  Antero, a Pessoa e a Saramago... Trazemos desde o início uma fragilidade endémica que não conseguimos superar. Por momentos, parece que vamos conseguir... construímos velas e lançamo-nos ao mar... E até navegamos... Mas o barco acaba sempre por parar. É este o drama... o nosso drama, o drama do nosso atraso e da nossa dependência. Somos demasiado passivos face aos tempos... Precisamos de ideias novas e de alternativas, precisamos de pensar... Não precisava vir o Roosevelt dizer que a democracia se funda em coisas simples.  Nós sabemos que são as coisas básicas e simples que definem um povo e lhe dão a sua identidade. Essas duas coisas fundamentais e básicas, o trabalho e a educação, perderam-se em Portugal. E sem eles, perdemos o caminho...
Não nos iludamos, de facto. Ou nos salvamos ou ninguém nos virá salvar... Nem o D. Sebastião...